Luis das Neves Paiva
- Por
- Marcos Teixeira
Luis da Neves Paiva (1903 – 1990) - Nasceu e viveu até aos 9 anos no seio de uma família católica. Aos 9 anos foi convidado por um casal de crentes, que viviam perto, para ir à Igreja Evangélica. A partir daí a sua vida transformou-se, entregando-se ao Senhor.
A sua mãe era viúva e devido a dificuldades materiais, foi obrigado a empregar-se muito novinho como aprendiz de compositor tipógrafo na antiga Papelaria Fernandes.
Aos 17 anos foi para Lourenço Marques com a sua mãe e depressa se empregou numa Tipografia. Aos 20 anos regressou a Lisboa e empregou-se na Tipografia Evangélica das Janelas Verdes, chamada "Imprensa Limitada", ligada a uma imprensa de Londres.
Começou como compositor, depois revisor, chefe de turno e mais tarde chefe geral. Imprimiam-se ali Bíblias e Novos Testamentos, Porções soltas de Evangelhos, Epístolas, literatura evangélica. Esta Tipografia trabalhava para muitas Igrejas Evangélicas. Numa determinada altura receberam urna importante encomenda de Novos Testamentos em Português e Espanhol. O título da encomenda era "Mílíon testament". Fez a revisão das duas encomendas tendo o trabalho saído com o maior êxito. Ensinou a arte gráfica a seu cunhado Nascimento Freire e mais tarde a muitas outras pessoas, de entre elas a Abel Pinheiro Rodrigues.
A Imprensa de Londres resolveu suspender o serviço em Portugal, em 1932. A Papelaria Fernandes, logo que teve conhecimento mandou-o chamar, permanecendo aí por cerca de 30 anos.
Simultaneamente, enquanto trabalhava de dia, á noite evangelizava. Colaborava na sua Igreja (Amoreiras), dirigia muitas vezes a Escola Dominical. Dirigiu a Escola Dominical de Almada, anos e anos. Pregava na Igreja de Alvaiade e durante anos deslocou-se a Sines, uma vez por mês, para pregar na Igreja daquela vila. Pregava na Igreja da R. Maria Pia e em muitas outras Igrejas em Lisboa.
Colaborou com a Igreja de Amadora e ajudou o Dr. Colin Bowker na sua formação.
Entretanto, e desde 1932 também, começava o trabalho de evangelização na zona de Sintra. Abriu salas de culto em muitos lugares e levou a palavra de Deus a: Tojeira Aldeia Galega, Vila Verde, Codiceira, Nafarros, Gouveia, Mucífal, Assafora, etc. A todos estes locais se deslocava a pé, ou de bicicleta, em carros velhos, em carros mais novos, de táxi, perdendo muitas vezes o comboio para voltar para casa. Chegou a dormir nos bancos da Estação ou num táxi de um amigo que tinha em Sintra.
Ainda lhe restava tempo para visitar doentes nos Hospitais. Fez estas visitas até aos 84 anos. Visitava presos. Pelos locais por onde evangelizou havia muito analfabetismo e então dedicou mais uma parte do seu tempo ensinando a ler e a escrever. Contava que um dos seus melhores amigos tinha 64 anos de idade.
O trabalho de evangelização em Sintra durou até 1982, ou seja: 50 anos de amor e dedicação e desejo de servir o Senhor. Muitos obreiros o ajudaram nesta obra e de entre muito se podem mencionar: Guido de Oliveira, José Ilídio Freire, Paulo Valon, Paulo Torres, Celestino de Oliveira, José Martins da Costa, Mário Pedro, Abel Rodrigues, Alfredo Machado, António Santos, José Bravo, Augusto Esperança, Augusto Esteves e alguns irmãos da Assembleia de Deus. Alguns destes obreiros já partiram para o Senhor.
Editou durante 12 anos um Calendário Bíblico, trabalho que ele retomou do pastor inglês George Howes. Teve grande aceitação, vendendo muitos exemplares para as ex-colónias, Continente e lhas. Algum lucro que tinha com esta venda, era aplicado na causa do Senhor. A sua vida foi uma vida de dádiva para com os outros. Nada possuía, senão uma alma rica de amor para com os outros e para com Deus.
Nas oficinas onde trabalhou, nas ruas, nos hospitais, nos transportes, ele falava da Palavra de Deus. Poucas horas antes da sua partida para o Senhor, falou de Jesus ao seu bisneto David. Minutos antes da sua partida, absolutamente lúcido e calmo, não se adivinhando que tal iria suceder, sua filha observou que ele estava orando. Fiel até ao fim da sua vida.
Nas suas muitas Bíblias que teve ao longo de 80 anos e que tinham muito uso, poderemos ler e encontrar verdadeiros testemunhos da grande fé que ele tinha em Deus. Há anotações muito belas e são verdadeiras inspirações. Teve momentos de solidão também, mas em todas as situações dava Glória a Deus. Numa das Bíblias, a que medeia entre 1960 e 1970, aproximadamente, pode ler-se na capa: "FALA SENHOR, PORQUE O TEU SERVO OUVE" e há depois uma citação: Êxodo 3:12 - "E Deus disse: CERTAMENTE eu serei contigo". E o Senhor esteve com ele até aos últimos momentos da sua vida.
Colaborou nas Convenções Beira Vouga durante alguns anos. Fez parte de duas campanhas de Billy Graham. Colaborou e foi um dos grandes impulsionadores dos Acampamentos Caravela, em Vila Nova de Milfontes.
Não possuía bens terrenos, vivia do seu pequeno ordenado e de um subsídio de 40 libras que provinha de Inglaterra, através do seu cunhado José Ilidio Freire, o qual acabou quando este faleceu. Era com este subsidio que ele pagava os transportes, muitas vezes as rendas das salas de culto, etc.
Aos 82 anos foi chamado por uma tipografia para fazer um trabalho de grande responsabilidade. Pagaram-lhe e ele entregou o lucro desse trabalho a uma Igreja Evangélica. Nunca pediu a qualquer Igreja que o ajudasse. Confiou sempre no Senhor, e de uma maneira ou de outra, Deus estava com ele e superava todas as dificuldades.
Era casado, pai de duas filhas, avó de quatro netos e bisavó de cinco bisnetos. Todos o amavam. Contava muitas histórias, histórias verdadeiras, episódios da sua vida, acontecimentos do dia a dia, de tal maneira extraordinários, onde se podia ver que a mão de Deus estava presente. Muitas pessoas se converteram através da sua palavra. Baptizou muitos, casou muitos jovens e dirigiu muitos funerais.
Foi residente do Lar Marínel, do Exército de Salvação durante dois anos e meio, e a seu pedido, tendo como a principal finalidade evangelizar naquele meio, enquanto podia servir ao Senhor, pois devido ao seu coração estar fraco, depois de um enfarte que teve em 1984 e não poder sair sozinho, poderia fazer ali algum trabalho. E de facto fez. Algumas almas se converteram através dele.
Refrigério 21 (Ago/Set.1990)









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