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Consolo nas Aflições

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INTRODUÇÃO


O trabalho para o qual o servo de Cristo é chamado apresenta múltiplas facetas. Ele não somente prega o Evangelho aos perdidos, alimenta o povo de Deus com o conhecimento e entendimento (Jeremias 3:15), e tira as pedras de tropeço de seu caminho (Isaías 57:14), mas ele também é ordenado a "clamar em alta voz, não se deter, levantar a sua voz como a trombeta, e anunciar ao meu povo a sua transgressão" (Isaías 58:1 e cf. 1 Timóteo 4:2). Enquanto outra parte importante de sua comissão é:  "CONSOLAI, consolai o meu povo, diz o vosso Deus" (Isaías 40:1). Que título honroso: "Meu povo!", Que relação confiante: "nosso Deus!" O que é uma tarefa agradável: "consolai o meu povo!" Uma tripla razão pode ser sugerida para a duplicação do encargo. Primeiro, porque às vezes as almas dos crentes se recusam ser consoladas (Salmos 77:2), e o consolo precisa ser repetido. Segundo, colocar este dever mais enfaticamente sobre o coração do pregador, para que ele não seja econômico ao ministrar o consolo. Terceiro, para termos a certeza de que o desejo de coração do próprio Deus é que Seu povo deva sempre se regozijar (Filipenses 4:4). Deus tem um "povo", os objetos de Seu favor especial: um grupo de pessoas que Ele tem em relação íntima que Ele os chama "Meu povo". Muitas vezes eles estão desconsolados: por causa de sua corrupção natural, das tentações de Satanás, do tratamento cruel do mundo, do estado de desprezo da causa de Cristo na terra. O "pai de toda a consolação" (2 Coríntios 1:3) é muito sensível a eles, e é Sua vontade revelada que Seus servos devam curar os quebrantados do coração e derramar o bálsamo de Gileade em suas feridas. É a causa que temos para exclamar: "Quem é Deus semelhante a ti!" (Miquéias 7:18), que tem provido o conforto daqueles que foram rebeldes contra o seu governo e transgressores de Sua lei.


O conteúdo deste pequeno volume têm aparecido de tempos em tempos em nossa revista mensal durante os últimos 30 anos. Eles eram, anteriormente, sermões que pregamos há muito tempo nos Estados Unidos e Austrália. Aqui e lá é um assunto (especialmente onde o assunto da profecia está mais em alta) que não é mais tocado, mas desde que o Senhor teve o prazer de abençoá-los em sua forma original para não poucos de seu povo aflito, não o revisamos. Que isso possa agradá-lo ao falar de paz para eles, para almas aflitas hoje, e a glória será só Dele.

 

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CAPÍTULO 1 - NENHUMA CONDENAÇÃO HÁ

 

"PORTANTO, agora nenhuma condenação  para os que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8:1)


"Portanto, agora nenhuma condenação ". O oitavo capítulo da epístola aos Romanos conclui a primeira seção desta maravilhosa epístola. Sua palavra de abertura é "Portanto", e pode ser vista de uma forma dupla. Primeiro, ela se conecta com tudo o que foi dito desde 3:21. Uma inferência é agora deduzida a partir de toda a discussão anterior, uma inferência que era, de fato, a grande conclusão que o apóstolo tinha em vista por todo o seu argumento. Porque Cristo foi estabelecido "propiciação pela fé no seu sangue" (3:25); porque Ele "foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação" (4:25); porque pela obediência de um, muitos (os crentes de todas as eras) serão "feitos justos", constituído assim, legalmente, (5:19); porque os crentes estão "mortos" (judicialmente) para o pecado" (6:2), porque estão "mortos" para a condenação do poder da lei (7:4), portanto, AGORA NENHUMA CONDENAÇÃO HÁ". 

 Mas não é só o "portanto" que deve ser visto como uma conclusão de toda a discussão anterior, também deve ser considerado como tendo uma estreita relação com o que o imediatamente precede. Na segunda metade de Romanos 7 o apóstolo havia descrito o conflito doloroso e incessante que é travado entre as naturezas antagônicas naquele que nasceu de novo, ilustrando isso por uma referência à sua própria experiência pessoal como um cristão. Tendo se retratado com um mestre da pena – sendo ele mesmo o modelo para o quadro – das lutas espirituais do filho de Deus, o apóstolo agora passa a dirigir a atenção para a consolação divina em uma condição tão angustiante e humilhante. A transição do tom desanimado do sétimo capítulo à linguagem triunfante do oitavo aparece surpreendente e abrupta; ainda é bastante lógico e natural. Se é verdade que para os santos de Deus pertence o conflito do pecado e da morte, sob cujo efeito eles choram, também é verdade que sua libertação da maldição e da condenação correspondente é uma vitória no qual eles se alegram. Um contraste muito marcante é, portanto, indicado.

 Na segunda metade de Romanos 7 o apóstolo trata do poder do pecado, que opera nos crentes enquanto eles estão no mundo; nos versos de abertura do capítulo oito, ele fala da culpa do pecado do qual eles são totalmente entregues no momento em que são unidos ao Salvador pela fé. Portanto, no versículo 7:24, o apóstolo pergunta: "quem me livrará" do poder do pecado, mas em 8:2 ele diz, "me livrou", ou seja, me tirou a culpa do pecado. "Portanto, agora nenhuma condenação há". Não é uma questão do nosso coração nos condenar (como em 1 João 3:21), nem de não encontrarmos nada que seja digno; ao invés, é o fato mais abençoado que Deus não condena o que crê em Cristo para a salvação de sua alma. Precisamos distinguir claramente entre a verdade subjetiva e objetiva; entre o que é judicial e o que é experimental; caso contrário, falharemos ao tirar de tais Escrituras, como estas, o conforto e a paz que elas se propõem a transmitir. Não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus. "Em Cristo" é a posição do crente diante de Deus, não sua condição na carne. "Em Adão" eu estava condenado (Romanos 5:12), mas "em Cristo" estou para sempre livre de toda condenação. "Portanto, agora nenhuma condenação há". A qualificação "agora" implica que houve um tempo quando os cristãos, antes de crerem, que estavam sob condenação. Isto foi antes de morrerem com Cristo, morreram judicialmente (Gálatas 2:20) à pena da justa lei de Deus. Este "agora", então, distingue entre dois estados ou condições. Por natureza estávamos "debaixo da (sentença da) lei", mas agora os crentes estão "debaixo da graça" (Romanos 6:14). Por natureza éramos "filhos da ira" (Efésios 2:3), mas agora somos "agradáveis a si no Amado" (Efésios 1:6). Sob a primeira aliança estávamos "em Adão" (1 Coríntios 15:22), mas agora estamos "em Cristo" (Romanos 8:1). Como crentes em Cristo temos a vida eterna, e por isso que "não entraremos em condenação".

 Condenação é uma palavra de tremenda importância, e quanto melhor a entendermos mais apreciaremos a maravilhosa graça que nos libertou de seu poder. Nos tribunais dos homens este é um termo que cai com sentença de medo aos ouvidos do criminoso condenado e enche os espectadores de tristeza e horror. Mas no tribunal da Justiça Divina é investido de um significado e conteúdo infinitamente mais solene e inspirador. Nessa corte cada membro da raça caída de Adão é citado. "Em iniquidade formado, em pecado concebido", cada um entra neste mundo em prisão - um criminoso indiciado, um rebelde algemado. Como, então, é possível alguém escapar de tal execução dessa sentença tão pavorosa? Havia apenas um caminho, e esse foi pela remoção do que havia em nós, do que provocou a sentença, ou seja, o pecado. Quando a culpa é removida então haverá "nenhuma condenação". A culpa é removida, retirada, queremos dizer, do pecador que crê? Deixe a Escritura responder: "Assim como está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões". (Salmos 103:12). "Eu, eu mesmo,sou o que apago as tuas transgressões" (Isaías 43:25).

"... lançaste para trás das tuas costas todos os meus pecados" (Isaías 38:17). "E jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades" (Hebreus 10:17).

 Mas como a culpa poderia ser removida? Somente ela sendo transferida. A santidade divina não poderia ignorá-lo; mas a graça divina pode e o transferiu. Os pecados dos crentes foram transferidos para Cristo: "... o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos" (Isaías 53:6). "Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós;" (2 Coríntios 5:21). "Portanto, nenhuma condenação há". O "nenhuma" é enfático. Significa que não há condenação alguma. Nenhuma condenação da lei, ou por conta de corrupção interna, ou porque Satanás pode fundamentar alguma acusação contra mim; não há nada de qualquer origem ou por qualquer motivo. "Nenhuma condenação" significa que nenhuma delas é possível; que nenhuma jamais vai ser imputada. Não há condenação, porque não há acusação (ver 8:33), e não pode haver nenhuma acusação, porque não há imputação do pecado (veja 4:8). "Portanto, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus". 

 Ao tratar do conflito entre as duas naturezas do crente, o apóstolo tinha, no capítulo anterior, falado de si mesmo em sua própria pessoa, a fim de mostrar que as maiores realizações na graça não isentam da guerra interna que ele descreve. Mas aqui, no versículo 8:1, o apóstolo muda o número. Ele não diz, nenhuma condenação há para mim, mas "para os que estão em Cristo Jesus". Esta foi a maior benevolência do Espírito Santo. O apóstolo tinha falado aqui no singular, devemos raciocinar que tal abençoada isenção estava bem ajustada a este honrado servo de Deus que apreciava tais privilégios maravilhosos; mas pode não se aplicar a nós. O Espírito de Deus, portanto, moveu o apóstolo a empregar o plural aqui, para mostrar que "nenhuma condenação" é verdadeiro para todos em Cristo Jesus. "Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus". Estar em Cristo Jesus é ser perfeitamente identificado com Ele na avaliação judicial e nos procedimentos de Deus: e é também ser um com Ele como vitalmente estando unidos pela fé. Imunidade da condenação não depende de qualquer sabedoria sobre a nossa "caminhada", mas unicamente em nosso ser "em Cristo".

"O crente está em Cristo como Noé estava encerrado na arca, com o céu escuro acima e as águas ondulantes abaixo, e nenhuma gota do dilúvio entrou na sua arca, nenhuma rajada da tempestade perturbou a serenidade do seu espírito. O crente está em Cristo como Jacó estava nas roupas do seu irmão mais velho quando Isaque o beijou e o abençoou. Ele está em Cristo como o pobre homicida que foi para a cidade de refúgio, quando perseguido pelo vingador do sangue, e que não pode alcançá-lo para matá-lo" (Dr. Winslow, 1857). E porque ele está "em Cristo", portanto, nenhuma condenação há para ele. Aleluia!

 

 

 


 

 

CAPÍTULO 2 - A SEGURANÇA DO CRISTÃO

"E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito". (Romanos 8:28) 

Muitos filhos de Deus têm, através dos séculos, tirado força e conforto desse abençoado versículo. Em meio a provações, perplexidades e perseguições, ele tem sido uma rocha sob seus pés. Embora aparentemente tais coisas parecessem trabalhar contra seu bem, ainda que para a razão carnal tais coisas parecessem estar a operar para seu sofrer, no entanto, a fé sabia que era justamente para o contrário. E como é grande a perda para aqueles que falharam em descansar sobre esta inspirada declaração: que dúvidas e temores são desnecessários; essa é a consequência. 

"...todas as coisas contribuem". O primeiro pensamento que nos ocorre é este: Que glorioso Ser é nosso Deus, capaz de fazer todas as coisas acontecerem assim! Que há uma quantidade assustadora de mal em constante atividade. Que há um número quase infinito de criaturas que existem no mundo. Que há uma quantidade incalculável de oposição aos próprios interesses. Que há um exército enorme de rebeldes lutando contra Deus. Que há hostes de criaturas espirituais em oposição ao Senhor. E, ainda assim, bem acima de tudo, está DEUS, em uma calma imperturbável, com total controle da situação. Lá, do trono de Sua exaltada majestade, Ele faz todas as coisas segundo o conselho da Sua própria vontade (Efésios 1:11). Tememos, pois, diante deste, em cujos olhos "Todas as nações são como nada perante ele; ele as considera menos do que nada e como uma coisa vã" (Isaías 40:17). Em reverente adoração diante deste "Alto e o Sublime, que habita na eternidade" (Isaías 57:15) levante seu louvor a Ele, que do mal pode induzir o bem maior. "Todas as coisas contribuem". Na natureza não há tal coisa como um vácuo, e não há uma criatura de Deus que não sirva a seu propósito planejado. Nada é sem serventia. Tudo é energizado por Deus, de modo a cumprir sua missão pretendida. Todas as coisas estão trabalhando em direção a grande finalidade do prazer de seu Criador: todos são movidos em Sua vontade imperativa. 

"Todas as coisas contribuem". Elas não só operam, elas cooperam; todas elas atuam perfeitamente como em um concerto, ainda que nenhuma sozinha, mas o ouvido ungido pode pegar os acordes de sua harmonia. Todas as coisas cooperam, não isoladas, mas em conjunto, como causas adjuntas e ajudas mútuas. É por isso que raramente as aflições vêm solitárias e sozinhas. Nuvem vem sobre nuvem: tempestade sobre tempestade. Tal como foi com Jó, um mensageiro da desgraça foi rapidamente sucedido por outro, carregado com notícias de tristeza ainda mais pesadas. No entanto, até mesmo aqui a fé pode rastrear tanto a sabedoria e o amor de Deus. É a composição dos ingredientes da receita que constitui o seu valor benéfico. Assim é com Deus: Suas dispensações não só "contribuem", mas "contribuem juntamente". Assim reconheceu o doce cantor de Israel - "Enviou desde o alto, e me tomou; tirou-me das muitas águas"(Sl 18:16). "Todas as coisas contribuem juntamente para o bem", etc. Estas palavras ensinam aos crentes que não importa o número nem o quão terrível é a característica das circunstâncias adversas, todas elas estão contribuindo para conduzi-los para a posse da herança prevista para eles no céu. 

Quão maravilhosa é a providência de Deus em dominar as coisas mais desordenadas e em voltar para nosso bem as coisas que em si são as mais perniciosas! Nos maravilhamos com Seu grande poder que detém os corpos celestes em suas órbitas; nos maravilhamos com a contínua periodicidade das estações e a renovação da terra; mas isso não é tão maravilhoso quanto tirar o bem do mal em todas as complicadas ocorrências da vida humana, e até mesmo o poder e a malícia de Satanás, com a natural tendência destrutiva de suas obras, para ministrar o bem para seus filhos. "todas as coisas contribuem juntamente para o bem". Assim deve ser por três motivos. Primeiro, porque todas as coisas estão sob o controle absoluto do governador do universo. Segundo, porque Deus quer o nosso bem, e nada mais do que o nosso bem. Terceiro, porque mesmo o próprio Satanás não pode tocar um fio de cabelo de nossa cabeça sem a permissão de Deus, e somente para promover o nosso bem. Nem todas as coisas são boas em si mesmas, nem em suas tendências, mas Deus faz todas as coisas contribuem para o nosso bem. Nada entra na nossa vida por acaso: nem existem quaisquer casualidades. Tudo está sendo movido por Deus, com este fim em vista, o nosso bem. Tudo está sendo subserviente ao propósito eterno de Deus; as abençoadas obras para aqueles marcados em conformidade com a imagem do Primogênito. Todo o sofrimento, tristeza, perda, são usados ​​por nosso Pai para ministrar em benefício dos eleitos. 

"... daqueles que amam a Deus". Esta é a maior característica distintiva de cada cristão verdadeiro. O inverso marca todos os não regenerados. Mas os santos são aqueles que amam a Deus. Seus credos podem diferir em detalhes menores; suas relações eclesiásticas podem variar na forma exterior; seus dons e graças podem ser muito desiguais; ainda, neste particular, há uma unidade essencial. Todos acreditam em Cristo, todos amam a Deus. Eles o amam pelo dom do Salvador: eles o amam como um Pai em quem podem confiar: eles o amam por Suas excelências pessoais - Sua santidade, sabedoria, fidelidade. Eles O amam por Sua conduta: por aquilo que Ele retém e por aquilo que Ele concede: por aquilo que Ele repreende e por aquilo que Ele aprova. Eles amam mesmo pela vara que disciplina, sabendo que Ele faz todas as coisas bem. Não há nada em Deus, e não há nada de Deus, para que os santos não o amem. E disso, eles estão todos assegurados, "Nós o amamos porque ele nos amou primeiro". 

"... daqueles que amam a Deus". Mas, infelizmente, eu amo a Deus tão pouco! Eu luto com tanta frequência com a minha falta de amor, e repreendo-me pela frieza do meu coração. Sim, há muito amor próprio e o amor do mundo, que às vezes eu questiono seriamente se eu tenho qualquer verdadeiro amor por Deus. Mas não é o meu verdadeiro desejo de amar a Deus um bom sintoma? Não é a minha verdadeira dor que eu o amo tão pouco uma evidência certa de que eu não o odeio? A presença de um coração duro e ingrato foi pranteado pelos santos de todas as eras. "Amar a Deus é uma aspiração celestial, que é sempre colocada em xeque pelos empecilhos e contenção da natureza terrena; e da qual não deve ser desvinculada até a alma ter feito a sua fuga do corpo vil, e clareado o seu caminho para o reino da luz e da liberdade "(Dr. Chalmers). 

"... daqueles que são chamados".  A palavra "chamado" nunca é, nas Epístolas do Novo Testamento, aplicada àqueles que são os destinatários de um simples convite externo do Evangelho. O termo sempre significa uma chamada interior e eficaz. Era uma chamada sobre a qual não tivemos controle, tanto em sua aparição quanto em tentar frustrá-la. Assim, em Romanos 1:6,7 e muitas outras passagens: "Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo. A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo". 

Esse chamado atingiu você, meu leitor? Ministros chamaram você: o Evangelho chamou, a consciência chamou, mas tem o Espírito Santo chamado com uma chamada interior e irresistível? Você foi espiritualmente chamado das trevas à luz, da morte à vida, do mundo à Cristo, de si para Deus? É uma questão da maior importância você saber se foi verdadeiramente chamado por Deus. Tem, então, a emoção, que dá vida a música dessa chamada soado e ecoado por todas as câmaras de sua alma? Mas como posso ter certeza de que eu recebi esse chamado? Há uma coisa aqui, no nosso texto, que deverá permitir-lhe determinar. Aqueles que foram chamados eficazmente, amaram a Deus. Ao invés de odiá-lo, eles agora o estimam; em vez de fugir dele aterrorizados, agora eles O buscam; em vez de não se importarem se a sua conduta O honraria, seu mais profundo desejo agora é O agradar e O glorificar. 

"... segundo o seu propósito". A chamada não é de acordo com os méritos dos homens, mas de acordo com o propósito divino: "Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (2 Tm 1:9.). O intento do Espírito Santo em trazer esta última cláusula é mostrar que a razão pela qual alguns homens amam a Deus e outros não deve ser atribuída apenas à soberania de Deus: não é por qualquer coisa especial neles, mas devido somente à Sua graça distintiva. Há também um valor prático nesta última cláusula. As doutrinas da graça são destinadas a um propósito a mais do que o de fazer-se um credo. Um dos principais é mover os afetos, e mais especialmente despertar esse carinho para que o coração oprimido, com medo, ou sobrecarregado com os cuidados, é totalmente insuficiente - até mesmo o amor de Deus. Para que este amor possa fluir perenemente de nossos corações, deve haver uma constante recorrência para quem o inspirou e que é estimado para aumentá-lo; assim como para reacender a sua admiração por uma bela cena ou imagem, você voltaria novamente para olhar sobre ela. É neste princípio que tanta força é colocada nas Escrituras em manter as verdades que acreditamos na memória: "Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado" (1 Cor 15:02). "... as quais desperto com exortação o vosso ânimo sincero", disse o apóstolo (2 Ped. 3:1). "Fazei isto em memória de mim", disse o Salvador. É, então, voltando na memória para aquela hora, quando, apesar da nossa miséria e indignidade absoluta, Deus nos chamou, que a nossa afeição será mantida viva. É por recordar a maravilhosa graça que, então, estendeu a mão para um pecador merecedor do inferno e arrebatou-lhe como um tição do fogo, que seu coração vai ser retirado em adoração e gratidão. E é por descobrir isso que se deve apenas ao soberano e eterno "propósito" de Deus que você foi chamado quando tantos outros foram desconsiderados, que o seu amor por Ele será aprofundado. Voltando às palavras de abertura do nosso texto, encontramos o apóstolo (como expressando a experiência normal dos santos) declara: "sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem". 

Isto é algo mais do que uma crença especulativa. Que todas as coisas contribuem para o bem é ainda mais do que um desejo ardente. Não é que nós só esperamos que todas as coisas assim contribuam, mas que estamos plenamente assegurados que todas as coisas assim contribuem. O conhecimento que se fala aqui é espiritual, não intelectual. É um conhecimento enraizado em nossos corações, que produz confiança na verdade da mesma. É o conhecimento da fé, que tudo recebe da mão benevolente da Sabedoria Infinita. É verdade que não obtemos muito conforto deste conhecimento quando estamos fora da comunhão com Deus. Nem vai nos sustentar quando a fé não está em operação. Mas quando estamos em comunhão com o Senhor, quando em nossas fraquezas nos inclinamos para Ele, então é esta a nossa bendita segurança: "Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti; porque ele confia em ti" (Isaías 26:3). Uma exemplificação marcante do nosso texto é fornecida pela história de Jacó - alguém que em vários aspectos cada um de nós se assemelha. Uma nuvem densa e escura veio sobre ele. O teste foi severo, e o medo estremeceu a sua fé. Seus pés quase que se desviaram. Seu triste lamento: "Então Jacó, seu pai, disse-lhes: Tendes-me desfilhado; José já não existe e Simeão não está aqui; agora levareis a Benjamim. Todas estas coisas vieram sobre mim" (Gênesis 42: 36). E ainda aquelas circunstâncias, que para os olhos ofuscados de sua fé usavam um tom tão sombrio, estavam naquele momento desenvolvendo e aperfeiçoando os eventos que se derramariam em torno da noite de sua vida o halo de um sol glorioso e sem nuvens. Todas as coisas estavam contribuindo para o bem dele! E assim, alma atribulada, as "muitas tribulações" logo passarão, e como você entrará no "reino de Deus" então verá, não mais "através de um vidro escuro", mas à luz do sol sem sombra a presença divina, que "todas as coisas" "contribuem juntamente" para o seu pessoal e eterno bem.

 

 

 


 

 CAPÍTULO 3 - SOFRIMENTOS COMPENSADOS


"Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada". (Romanos 8:18)

 

Ah, alguém diz, que essa passagem deve ter sido escrita por um homem que não conhecia o sofrimento, ou por alguém familiarizado com nada mais do que as leves irritações da vida. Não é isso. Estas palavras foram escritas sob a direção do Espírito Santo, e por alguém que bebeu profundamente do cálice do sofrimento, sim, por alguém que sofreu aflições em suas formas mais intensas. Veja o seu próprio testemunho: "Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo;  Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos daminha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez" (2 Coríntios 11:24-27). "Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada". 

Esta, então foi a firme convicção, não de alguém "favorito da sorte", não de alguém que encontrou na jornada da vida um caminho atapetado, rodeado com rosas, mas, ao contrário, de alguém que foi odiado por seus parentes, que foi muitas vezes espancado, que sabia o que era ser privado não só do conforto, mas também das necessidades básicas da vida. Como, então explicar o seu alegre otimismo? Qual foi o segredo da sua dignidade sobre seus problemas e provações? 

A primeira coisa com a qual o apóstolo penosamente provado consolou-se era que os sofrimentos do cristão são de curta duração - que estão limitados ao "tempo presente". Isto está em nítido e em solene contraste com sofrimentos dos que rejeitam a Cristo. Seus sofrimentos serão eternos: para sempre atormentados no Lago de Fogo. Mas muito diferente é para o crente. Seus sofrimentos são restritos a esta vida na Terra, que é comparado a uma flor que sai e é cortada, a uma sombra que foge e não permanece. Uns poucos anos no máximo, e vamos passar deste vale de lágrimas para aquele país abençoado, onde lamentos e choros nunca mais serão ouvidos. 

Em segundo lugar, o apóstolo olhou além, com os olhos da fé para "a glória". Para Paulo "a glória" era algo mais do que um sonho lindo. Era uma realidade prática, exercendo uma poderosa influência sobre ele, consolando-o nas horas mais críticas e difíceis da adversidade. Este é um dos verdadeiros testes da fé. O cristão tem um sólido suporte na hora da aflição, quando o incrédulo não tem. O filho de Deus sabe que na presença do Pai " fartura de alegrias", e que à sua mão direita " delícias perpetuamente". E a fé se apodera deles, apropria-se deles, e vive na alegria reconfortante deles até agora. Assim como Israel no deserto foi encorajado por uma visão do que os esperava na terra prometida (Nm 13:23,26), assim, aquele que hoje caminha pela fé, e não por vista, contempla o que os olhos não viram, nem ouvidos ouviram, mas o que Deus pelo Seu Espírito Santo tem revelado a nós (1 Cor. 2:9,10). 

Em terceiro lugar, o apóstolo se regozijou "com a glória que em nós há de ser revelada". Tudo isso significa que ainda não somos capazes de ter uma compreensão plena dessas coisas. Mas mais do que uma dica foi concedida a nós. Haverá: (a) A "glória" de um corpo perfeito. Naquele dia esta corrupção se revestirá da incorruptibilidade, e isto que é mortal, da imortalidade. O que foi semeado em ignomínia será ressuscitado em glória, e o que foi semeado em fraqueza será ressuscitado em vigor. Assim como trouxemos a imagem do terreno, devemos trazer também a imagem do celestial (1 Coríntios. 15:49). O conteúdo dessas expressões é resumido e amplificado em Filipenses 3:20,21: "Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas”. (b) Haverá a glória de uma mente transformada. "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido" (1 Cor 13:12). Oh, que envolvimento de luz intelectual com que cada mente será glorificada! Que faixa de luz vai envolvê-la! Que capacidade de entendimento vai deleitá-la! Então todos os mistérios serão desvendados, todos os problemas resolvidos, todas as discrepâncias reconciliadas. Então cada verdade da revelação de Deus, cada evento de Sua providência, cada decisão de seu governo, ficará ainda mais transparentemente clara e resplandecente como o próprio sol. Você, em sua busca presente pelo conhecimento espiritual, lamenta a escuridão da sua mente, a fraqueza de sua memória, as limitações de suas faculdades intelectuais? Então nos regozijemos na esperança da glória que está para ser revelada em você - quando todos os seus poderes intelectuais serão renovados, desenvolvidos, aperfeiçoados, de modo que você conhecerá como você é conhecido. (C) Melhor de tudo, haverá a glória da santidade perfeita. A obra da graça de Deus em nós, então, será completada. Ele prometeu que aperfeiçoará "o que me toca" (Salmo 138:8). Então será a consumação de pureza. Fomos predestinados para sermos "conformes à imagem de Seu Filho" (Rm 8:29), e quando O veremos "seremos semelhantes a ele" (1 João 3:2). Então, nossas mentes não serão mais contaminadas por imaginações do mal, nossas consciências não serão mais manchadas por um sentimento de culpa, nossas afeições não serão mais enganadas por objetos indignos. Que perspectiva maravilhosa é esta! A "glória" que será revelada em mim agora dificilmente pode refletir um raio solitário de luz! Em mim - tão desobediente, tão indigno, tão pecador, vivendo tão pouco em comunhão com Aquele que é o Pai das luzes! Pode ser que em mim esta glória seja revelada? Assim afirma a infalível Palavra de Deus. Se eu sou um filho da luz por estar "nele", que é o resplendor da glória do Pai, mesmo que agora habite em meio a tons escuros do mundo, um dia irei ofuscar o brilho do firmamento. E quando o Senhor Jesus retornar a esta terra ele deve ser "admirável naquele dia em todos os que creem" (II Tes. 1:10). 

Finalmente, o apóstolo aqui pesa o "sofrimento" do tempo presente em oposição a "glória", que deverá ser revelada em nós, e como ele declarou que uma "não é digna de ser comparada" com a outra. Uma é transitória, outra é eterna. Como, então, não há proporção entre o finito e o infinito, não há comparação entre os sofrimentos da terra e a glória do céu. Um segundo de glória superarão uma vida de sofrimento. O que são os anos de labuta, de doença, de lutar com a pobreza, de tristeza em qualquer forma, quando comparados com a glória da terra de Emanuel! Beber do rio da vida na mão direita de Deus, uma respiração no paraíso, um instante em meio ao sangue lavado ao redor do trono, será mais do que compensador do que todas as lágrimas e gemidos da terra.  "Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada".Que o Espírito Santo permita que tanto o escritor quanto o leitor se agarrem a isso e apropriem-se com fé e vida na posse presente e gozo disso para o louvor da glória da graça divina.

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 4 - O GRANDE DOADOR

 

“Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” (Romanos 8:32)


O versículo acima nos fornece um exemplo da lógica Divina. Ele contém uma conclusão tirada de uma premissa; a premissa de que Deus entregou Cristo para o Seu povo, portanto, tudo o mais que for necessário para eles é certo que será dado. Há muitos exemplos na Sagrada Escritura dessa lógica divina. "Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?" (Mateus 6:30). "Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido  reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rm 5:10). "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?" (Mateus 7:11). Então, aqui em nosso texto o raciocínio é irresistível e vai direto para a mente e o coração. Nosso texto fala sobre o caráter gracioso do nosso amado Deus como interpretado pelo dom de Seu Filho. E isso, não apenas para a instrução de nossas mentes, mas para o conforto e segurança de nossos corações. O dom do Seu próprio Filho é a garantia de Deus para o Seu povo de todas as bençãos necessárias. A maior inclui a menor; Seu dom espiritual inefável é a garantia de todas as misericórdias temporais necessárias. Agora note em nosso texto quatro coisas: 

1. O caro sacrifício do Pai. Isto traz diante de nós um lado da verdade sobre a qual temo que raramente meditamos. Nos deleitamos em pensar no maravilhoso amor de Cristo, cujo amor era mais forte que a morte, e que nenhum sofrimento considerou grande demais para o Seu povo. Mas o que isso deve ter significado para o coração do Pai quando Seu Amado deixou Seu Lar Celestial! Deus é amor, e nada é tão sensível quanto o amor. Eu não acredito que a divindade seja sem emoção, o estóico como representado pelos escolásticos da Idade Média. Eu acredito que o envio do Filho foi algo que o coração do Pai sentiu, que foi um verdadeiro sacrifício de sua parte. Pesa bem então o solene fato que admite a promessa segura que se segue: Deus "nem mesmo a seu próprio filho poupou"! Expressivas, profundas, comoventes palavras! Sabendo muito bem, como ele só poderia, tudo o que envolve a redenção - a Lei rígida e inflexível, insistindo em perfeita obediência e exigindo a morte para os seus transgressores. Justiça, severa e implacável, exigindo a plena satisfação, recusando-se a "inocentar o culpado". No entanto, Deus não negou o único sacrifício que poderia atender o caso. Deus "nem mesmo a seu próprio Filho poupou", embora sabendo muito bem a humilhação e ignomínia da manjedoura de Belém, a ingratidão dos homens, não tendo onde reclinar a cabeça, o ódio e a oposição dos ímpios, a inimizade e ofensas de Satanás - Ele ainda assim não hesitou. Deus não relaxou os deveres das santas exigências de Seu trono, nem diminuiu um pouco da terrível maldição. Não, Ele "nem mesmo a seu próprio Filho poupou". O maior valor foi exigido; as últimas gotas no copo da ira foram drenados. Mesmo quando seu amado chorou no jardim, "se queres, passa de mim este cálice", Deus nem mesmo o "poupou". Quando mãos vis o pregaram na cruz , Deus chorou "Ó espada, desperta-te contra o meu pastor, e contra o homem que é o meu companheiro, diz o SENHOR dos Exércitos. Fere ao pastor, e espalhar-se-ão as ovelhas; mas volverei a minha mão sobre os pequenos. " (Zacarias 13:7). 

2. O propósito misericordioso do Pai. "... antes o entregou por todos nós". Aqui nos é dito por que o Pai fez um sacrifício tão caro; Ele não poupou Cristo, e Ele poderia poupar! Não foi falta de amor ao Salvador, mas maravilhoso, amor, incomparável insondável por nós! Oh, maravilhoso propósito do Altíssimo. "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito". Verdadeiramente, tal amor excede todo o entendimento. Além disso, Ele fez esse caro sacrifício não com tristeza ou relutantemente, mas livremente, por amor. Uma vez que Deus tinha dito ao Israel rebelde, "Como te deixaria, ó Efraim?" (Oséias 11:8). Infinitamente Ele tinha mais motivos a dizer isso do Santo, o Seu bem-amado, Aquele em quem Sua alma diariamente deleitava. No entanto, Ele "o entregou" - a vergonha ao desprezo, ao ódio e perseguição, ao sofrimento e a própria morte. E Ele o entregou por nós, descendentes do rebelde Adão, depravado e corrompido, impuro e pecaminoso, vil e inútil! Por todos nós, que tínhamos ido para o "distante país" da alienação dEle, e lá passamos nossa existência numa vida desregrada. Sim, "por todos nós", que havíamos se extraviado como ovelhas, cada um andando em "seus próprios caminhos". Por todos nós "que éramos por natureza filhos da ira, como os outros também", em quem não habitava nenhum bem. Por todos nós, que se rebelamos contra o nosso Criador, odiamos Sua santidade, desprezamos a Sua Palavra, quebrando os seus mandamentos, resistindo ao Seu Espírito. Por todos nós, que merecíamos ser lançados no fogo eterno e receber o pagamento que os nossos pecados tão plenamente mereceram. Sim, para ti companheiro cristão, que às vezes é tentado a interpretar suas aflições como uma mostra da rigidez de Deus; que considera a sua pobreza como uma marca de Sua negligência, e seus períodos de escuridão como evidências de Sua deserção. Oh, irmão, confesse agora a Ele a maldade de tal infame dúvida, e nunca mais questione o amor d'Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós. A fidelidade exige que saliente o pronome de qualificação em nosso texto. Não é Deus "o entregou por todos", mas "por todos nós". Isto é definitivamente definido nos versos que imediatamente o precedem. No versículo 31 a pergunta é feita: "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" No versículo 30 este "nós" é definido como aqueles a quem Deus predestinou e "chamou" e "justificou". O "nós" são os favoritos do céu, os objetos da graça soberana. Eleitos de Deus. E ainda que em si mesmos, eles sejam, por natureza e prática, merecedores de nada além da ira. Mas, ainda assim, graças a Deus, por ser por "todos nós", o pior, assim como o melhor, o devedor de quinhentos igualmente quanto o de cinquenta. 

3. A inferência do bendito Espírito Santo. Pondere bem a gloriosa "conclusão" que o Espírito de Deus aqui tira do maravilhoso fato declarado na primeira parte do nosso texto: "Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas". Como conclusivo e reconfortante é o inspirado raciocínio do apóstolo. Argumentando do maior para o menor, ele passa a assegurar ao fiel da prontidão de Deus para também livremente conceder todas as bênçãos necessárias. O dom do Seu próprio Filho, tão generoso e sem reservas concedido, é o penhor de todas as outras misericórdias necessárias. Aqui é a garantia infalível de tranquilidade perpétua para o espírito tentado e abatido do crente. Se Deus fez o maior, ele irá deixar o menor desfeito? O amor infinito nunca pode mudar. O amor que não poupou a Cristo não pode deixar seus objetos, nem invejar quaisquer bênçãos necessárias. O triste é que nossos corações estão naquilo que não temos, em vez de sobre o que nós já temos. Portanto, o Espírito de Deus permanece em nós apesar de nossa impaciência e de buscarmos o nosso próprio interesse, silencia o descontentamento da ignorância com uma alma a satisfazer-se com o conhecimento da verdade, lembrando-nos não só da realidade do nosso interesse no amor de Deus, mas também da extensão dessa bênção que flui dela. Pese bem o que está envolvido na lógica deste verso. Primeiro, o grande dom foi dado voluntariamente; Ele não vai dar a outros que o pedirem? Nenhum de nós suplicou a Deus que enviasse o Seu Amado, mas Ele enviou! Agora, podemos chegar ao trono da graça e apresentar os nossos pedidos no nome virtuoso e eficaz de Cristo. Em segundo lugar, esse excelente dom custou muito a Ele; Ele não vai, então, conceder os dons menores que nada lhe custam, exceto pelo prazer de dar! Se um amigo me desse um valioso quadro, ele iria invejar o papel necessário para o embrulhar? Ou se um ente querido fizesse para mim um presente de uma jóia preciosa, ele iria se recusar a carregá-lo em uma caixa pequena? Quanto menos Aquele que não poupou seu próprio Filho, reter alguma coisa boa aos que andam na retidão. Terceiro, o dom foi dado quando ainda éramos inimigos; então Deus não teria misericórdia de nós, agora que fomos reconciliados e somos amigos Dele? Se Ele tinha o propósito de misericórdia para nós, estando nós ainda em nossos pecados, quanto mais Ele nos vai favorecer agora que temos sido purificados de todo pecado pelo precioso sangue de Seu Filho! 

4. A reconfortante promessa. Observe o tempo que é usado aqui. Não é "Ele nos tem dado todas as coisas", embora isso também seja verdadeiro, pois mesmo agora somos "herdeiros de Deus" (Rm 8:17). Mas nosso texto vai mais longe do que isso: "como nos não dará também com ele todas as coisas?" A segunda metade deste maravilhoso versículo contém algo mais do que um registro do passado; ele fornece confiança reconfortante, tanto para o presente quanto para o futuro. Não há limite de tempo colocado sobre esta certeza. Tanto agora no presente quanto para todo o sempre, mesmo no futuro Deus deve manifestar-se como o grande doador. Nada para a Sua glória e para a nossa boa vontade Ele vai reter. O mesmo Deus que entregou Cristo para todos nós é sem "mudança nem sombra de variação". Observe a maneira pela qual Deus dá: "não dará também com ele todas as coisas?" Deus não tem que ser persuadido, não há relutância nEle para nos conquistar. Ele está sempre mais disposto a dar do que nós para receber. Mais uma vez, Ele não está sob nenhuma obrigação com qualquer que seja, se Ele fosse, Ele se guardaria da necessidade patente aos Seus olhos, em vez de dar "livremente". Sempre devemos lembrar que Ele tem todo o direito de fazer com o que é Seu conforme Lhe agrada. Ele é livre para dar a quem Ele quer. A palavra "livre" não significa apenas que Deus não está sob nenhuma restrição, mas também significa que Ele não cobra por seus dons, Ele não coloca preço em Suas bênçãos. Deus não é varejista de misericórdias ou negociador de boas coisas; se Ele fosse, a justiça exigiria dele cobrar exatamente o que cada bênção vale, e então quem, dentre os filhos de Adão poderia encontrar os meios para comprá-las? Não, bendito seja Seu nome, os dons de Deus são "sem dinheiro e sem preço" - e imerecidos. Finalmente, alegrar-se na abrangência desta promessa: "como nos não dará também com ele todas as coisas?" O Espírito Santo aqui nos deleita com a extensão da maravilhosa garantia de Deus. O que é que você precisa, companheiro cristão? É o perdão? Então Ele não disse: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça" (I João 1:9)? É a graça? Então Ele não disse: "E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra" (2 Cor 9:8.)? É um "espinho na carne"? Isso também será dado "foi-me dado um espinho na carne" (2 Coríntios. 12:7). É cansaço? Então atenda o convite do Salvador, "Vinde a mim... eu vos aliviarei". (Mateus 11:28). É consolo? Não é Ele o Deus de toda consolação? (2 Cor. 1:3) "como nos não dará também com ele todas as coisas?" É das misericórdias temporais que o leitor está precisando? São suas circunstâncias adversas, de modo que você está cheio de pressentimentos sombrios? A sua botija de azeite e panela de farinha parecem aos seus olhos como que em breve estarão completamente vazias? Então lance a sua necessidade diante de Deus, e o faça na fé simples, como de uma criança. Você pensa que Ele concederá as maiores bênçãos da graça e negará as menores da providência? Não, "O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades" (Fp 4:19). É verdade, Ele não prometeu dar tudo que você pedir, por que muitas vezes pedimos "errado". Observe a ressalva: "como nos não dará também com ele todas as coisas?" Muitas vezes desejamos coisas que se colocam em entre nós e Cristo, se forem concedidos, portanto, Deus na Sua fidelidade os retêm. 

Aqui, então, são quatro coisas que devem trazer conforto para cada coração renovado. O caro sacrifício do Pai. Nosso Deus é um Deus doador e nenhuma coisa boa Ele sonega aos que andam na retidão. O gracioso propósito do Pai. Foi por nós que Cristo foi entregue; foi nosso mais alto e eterno interesse que Ele tinha no coração. A inferência infalível do Espírito. O maior inclui a menor; o dom inefável garante a dádiva de todos os outros favores necessários. A reconfortante promessa. Sua fundação certa, o seu âmbito presente e futuro, o seu alcance abençoado, são para a garantia dos nossos corações e a paz de nossas mentes. Que o Senhor possa acrescentar Suas bênçãos a esta pequena meditação.

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 5 - DEUS NÃO ESQUECE SEU POVO

"Que se lembrou da nossa baixeza; porque a sua benignidade dura para sempre" (Salmos 136:23).


"Que se lembrou". Isto está em marcante e abençoado contraste com os nossos esquecimentos Dele. Como qualquer outra faculdade de nosso ser, a memória foi afetada pela queda e carrega as marcas da depravação. Isso é comprovado da capacidade de reter o que é inútil e das dificuldades encontradas para reter o que é bom. Uma tola canção ou uma música ouvida na juventude vai conosco até o túmulo; um sermão útil é esquecido em menos de 24 horas! Mas a mais trágica e grave de todas é a facilidade com que nos esquecemos de Deus e de Suas incontáveis misericórdias. Mas, bendito seja Seu nome, Deus nunca se esquece de nós. Ele é o lembrador fiel. Ficamos muito impressionados quando ao consultar a concordância, descobrimos que as primeiras cinco vezes que a palavra "lembrar" é usada nas Escrituras, em cada caso, ela está conectada com Deus. 

"E LEMBROU-SE Deus de Noé, e de todos os seres viventes, e de todo o gado que estavam com ele na arca" (Gênesis 8:1). "E estará o arco nas nuvens, e eu o verei, para me lembrar da aliança eterna entre Deus e toda a alma vivente de toda a carne, que está sobre a terra" (Gênesis 9:16). "E aconteceu que, destruindo Deus as cidades da campina, lembrou-se Deus de Abraão, e tirou a Ló do meio da destruição, derrubando aquelas cidades em que Ló habitara". (Gênesis 19:29) , etc. A primeira vez que ele é usado pelo homem, lemos: "O copeiro-mor, porém, não se lembrou de José, antes se esqueceu dele." (Gênesis 40:23)! A referência histórica aqui é para os filhos de Israel, quando eles estavam trabalhando entre os fornos de tijolos do Egito. Realmente eles estavam em uma "baixeza": uma nação de escravos, gemendo sob o açoite dos impiedosos chefes, oprimidos por um rei sem Deus e sem coração. Mas, quando não havia nenhum sinal de piedade, o Senhor olhou para eles e ouviu seus gritos de aflição. Ele "lembrou" deles em sua baixeza. E por quê? Êxodo 2:24,25 nos diz: "E ouviu Deus o seu gemido, e lembrou-se Deus da sua aliança com Abraão, com Isaque, e com Jacó; E viu Deus os filhos de Israel, e atentou Deus para a sua condição". E a história se repete. O estado de baixeza de Israel ainda não foi chegou. Temível como foram suas experiências durante os últimos dezenove séculos, a hora mais negra de sua noite escura ainda está por vir diante deles. Após a presente dispensação da graça terminar, descerão julgamentos sobre os judeus, mais terríveis do que aqueles que seus pais sofreram na casa da servidão. A "grande tribulação" será o momento mais agudo quando os seus sofrimentos serão experimentados. Mas, mesmo assim, Deus vai se "lembrar" deles. Como está escrito, "Ah! porque aquele dia é tão grande, que não houve outro semelhante; e é tempo de angústia para Jacó; ele, porém, será salvo dela​" (Jeremias 30:7). Ele vai se "lembrar" da Sua aliança com seus antepassados (Levítico 24:42, 44, etc.). 

Mas o nosso texto não está limitado a semente literal de Abraão: ele faz referência a todo o "Israel de Deus" (Gálatas 6:16). Os santos dos dias de hoje da salvação também são unânimes em afirmar: "Que se lembrou da nossa baixeza". Quão "baixo" era o nosso "estado" por natureza! Como criaturas caídas, nos colocamos em um estado de miséria e desgraça, incapazes de se salvar ou de ajudar a nós mesmos. Mas, na maravilhosa graça, Deus teve piedade de nós. Seu braço forte estendeu a mão e nos resgatou. Ele veio para onde nós estávamos caídos, nos viu, e teve compaixão de nós (Lucas 10:33). Portanto, todo cristão pode dizer: "Tirou-me dum lago horrível, dum charco de lodo, pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos" (Salmos 40:2). E por que Ele "lembraria" de nós? A própria palavra "lembrar" fala de pensamentos anteriores de amor e misericórdia para conosco. Como foi com os filhos de Israel no Egito, assim foi conosco em nossa condição arruinada por natureza. Ele "lembrou" de Seu pacto, esse pacto em que Ele havia entrado com o nosso Fiador da eternidade. Como lemos em Tito 1:2 da vida eterna "a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos". Prometida a Cristo, que Ele daria a vida eterna para aqueles a quem a nossa aliança o chefe devesse efetuar. Sim, Deus "lembrou" que tinha nos elegido "nele antes da fundação do mundo" (Efésios 1:4), portanto, que Ele, no devido tempo, nos trouxe da morte para a vida. No entanto, essa bendita palavra vai além de nossa experiência inicial da graça salvadora de Deus. 

Historicamente, nosso texto não se refere apenas a Deus se lembrando do Seu povo, enquanto eles estavam no Egito, mas também, como mostra o contexto, enquanto eles estavam no deserto, a caminho da Terra Prometida. As experiências de Israel no deserto prefiguraram a caminhada dos santos por este mundo hostil. E a "lembrança" de Jeová em relação a eles, manifestada no suprimento diário de todas as suas necessidades, esboça as ricas disposições da sua graça para nós enquanto caminhamos para a nossa casa nos céus. Nosso estado presente, aqui na terra, é apenas humilde, porque agora não reinamos como reis. No entanto, nosso Deus sempre nos lembra, e a cada hora Ele nos ministra. "Que se lembrou da nossa baixeza". Nem sempre estamos autorizados a habitar sobre o monte. No mundo natural, assim como em nossas experiências. Dia claro e ensolarado dão lugar a dias  escuros e nublados: o verão é seguido pelo inverno. Decepções, perdas, aflições, lutos aparecem no nosso caminho, e somos humilhados. E muitas vezes quando mais precisamos do conforto dos amigos, eles falham conosco. Aqueles que contamos com ajuda, se esquecem de nós. Mas, mesmo assim, houve um "que se lembrou de nós" e mostrou-se ser "o mesmo ontem, hoje e sempre", e então provamos novamente que "a sua benignidade dura para sempre". "Que se lembrou da nossa baixeza".  Há alguns que ao lerem estas linhas vão pensar em outra aplicação a estas palavras: ou seja, o momento em que você deixou seu primeiro amor, quando o seu coração ficar frio, e sua vida tornar-se mundana. Quando você estava em um triste estado de apostasia. Então, na verdade, era seu estado uma humilhação, mesmo assim o nosso Deus fiel "lembrou" de ti. Sim, cada um de nós tem motivo para dizer com o salmista "Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome" (23:03). "Que se lembrou da nossa baixeza". 

Ainda outra aplicação dessas palavras pode ser feita, ou seja, a última grande crise do santo, quando ele sai deste mundo. Como a centelha vital do corpo escurece e a natureza falha, então isso também é nosso "estado" de baixeza. Mas então também o Senhor lembra de nós, pois "a sua benignidade dura para sempre". A situação extrema do homem é a oportunidade para Deus. Sua força se aperfeiçoa na nossa fraqueza. É então que ele "lembra"de nós, fazendo Suas reconfortantes e boas promessas, "Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça" (Isaías 41: 10). "Que se lembrou da nossa baixeza". Certamente este texto irá nos fornecer as palavras adequadas para expressar o nosso agradecimento quando estamos na igreja, presentes com o Senhor. Como deveremos então, louvá-Lo por Sua fidelidade à aliança, Sua incomparável graça, e Sua bondade, por ter se lembrado "de nossa baixeza"! Então, nós conheceremos, como somos conhecidos. Nossas memórias serão renovadas, aperfeiçoadas, e vamos lembrar todo o caminho do “Senhor, nosso Deus nos guiou" (Deuteronômio 8:2), recordando com gratidão e alegria Suas lembranças fiéis, reconhecendo com adoração pois "sua benignidade dura para sempre".

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 6 - PROVADO PELO FOGO

"Porém ele sabe o meu caminho; provando-me ele, sairei como o ouro". Jó 23:10


Jó aqui se corrige. No início do capítulo, encontramo-lo dizendo: "Ainda hoje a minha queixa está em amargura; a minha mão pesa sobre meu gemido. Ah, se eu soubesse onde o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal" (versículos 1 e 2). O pobre Jó sentiu que seu fardo era insuportável. Mas ele se recupera. Ele verifica seu acesso de raiva e revê sua decisão impetuosa. Quantas vezes nós temos que nos corrigir! Somente um já caminhou sobre a Terra que nunca precisou fazê-lo.

Jó aqui conforta a si mesmo. Ele não conseguia entender os mistérios da Providência, mas Deus sabia o caminho que ele tomou. Jó tinha diligentemente buscado a presença serena de Deus, mas, por um tempo, em vão. "Eis que se me adianto, ali não está; se torno para trás, não o percebo. Se opera à esquerda, não o vejo; se se encobre à direita, não o diviso” (versículos 8 e 9). Mas ele consolou-se com esta bendita verdade, embora eu não posso ver a Deus, o que é mil vezes melhor, Ele pode me ver - "Ele me conhece". Aquele que está acima não é nem irresponsável, nem indiferente a nossa sorte. Se Ele percebe a queda de um passarinho, se Ele conta os cabelos da nossa cabeça, é claro que "Ele sabe" o caminho que eu tomo. Jó aqui enuncia uma visão nobre da vida. Como esplendidamente ele estava otimista! Ele não permitiu que suas aflições o transformassem em um cético. Ele não permitiu que os problemas e angústias que estava passando o dominassem. Ele olhou para o lado luminoso das nuvens escuras do lado de Deus, escondido do senso e da razão. Ele tomou uma visão maior da vida. Ele olhou para além das imediatas "provas de fogo" e disse que o resultado seria ouro refinado. "Porém ele sabe o meu caminho; provando-me ele, sairei como o ouro". Três grandes verdades são expressas aqui: vamos considerar brevemente cada uma separadamente.

1. O conhecimento divino de minha vida. "Porém ele sabe o meu caminho". A onisciência de Deus é um dos mais maravilhosos atributos da divindade. "Porque os seus olhos estão sobre os caminhos do homem, e ele vê todos os seus passos" (Jó 34:21). "Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons (Provérbios 15:3). Spurgeon disse: "Um dos maiores testes da religião experimental é: qual é a minha relação com a onisciência de Deus?"Qual é sua relação com ela, caro leitor? Como isso afeta você? Ela angustia ou o conforta? Você se apequena diante do pensamento de Deus em saber tudo sobre o seu caminho? Talvez, um caminho mentiroso, egoísta e hipócrita? Para o pecador este é um pensamento terrível. Se ele nega ou não, ele procura esquecer. Mas para o cristão, é o verdadeiro conforto. Como é confortante lembrar que meu Pai sabe tudo sobre minhas provações, minhas dificuldades, minhas tristezas, meus esforços para glorificá-Lo. Preciosa verdade para aqueles que estão em Cristo, angustiantes pensamentos para todos os que estão fora de fora, que o caminho que eu tomo é totalmente conhecido e observado por Deus. "... ele sabe o meu caminho". Homens não sabem o caminho que Jó tomou. Ele foi seriamente mal compreendido, e para alguém com um temperamento sensível ser mal compreendido, é uma dura provação. Seus amigos achavam que ele era um hipócrita. Eles acreditavam que ele era um grande pecador e estava sendo punido por Deus. Jó sabia que ele era um santo indigno, mas não um hipócrita. Ele apelou contra sua sentença de censura "Porém ele sabe o meu caminho; provando-me ele, sairei como o ouro"


Aqui é a instrução para nós quando circunstanciados. Seus irmãos na fé podem não o entender, e interpretar mal o tratamento de Deus com você, mas console-se com o abençoado fato de que aquele que é onisciente sabe. "... ele sabe o meu caminho". No sentido mais amplo do termo Jó não sabia o caminho que ele tomava, nem qualquer um de nós. A vida é profundamente misteriosa, e o passar dos anos não oferecem nenhuma solução. Nem o filosofar nos ajuda. A vontade humana é um estranho enigma. A consciência testemunha que somos mais do que autômatos. O poder de escolha é exercido por nós em cada movimento que fazemos. E, no entanto é evidente que a nossa liberdade não é absoluta. Há forças que são exercem sobre nós, tanto boas quanto más, que estão além do nosso poder de resistir. Tanto a hereditariedade quanto o ambiente exercem poderosas influências sobre nós. Nosso ambiente e as circunstâncias são fatores que não podem ser ignorados. E como a providência "forma nossos destinos"? Ah, quão pouco sabemos o caminho que "tomamos". Disse o profeta: "Eu sei, ó SENHOR, quenão é do homem o seu caminho; nem do homem que caminha o dirigir os seus passos" (Jeremias 10:23). Aqui entramos no domínio do mistério; e é inútil negá-lo. Melhor conhecer com o sábio: "Os passos do homem são dirigidos pelo SENHOR; como, pois, entenderá o homem o seu caminho?" (Prov. 20:24) No sentido mais estrito do termo Jó sabia o caminho que ele tomava. O "caminho" que ele nos diz nos próximos dois versos. "Nas suas pisadas os meus pés se afirmaram; guardei o seu caminho, e não me desviei dele. Do preceito de seus lábios nunca me apartei, e as palavras da sua boca guardei mais do que a minha porção" (Jó 23:11, 12).

O caminho que Jó escolheu era o melhor caminho, o caminho bíblico, o caminho de Deus, o "seu caminho". O que você acha desse caminho, caro leitor? Não foi uma grande escolha? Ah, não só "paciente", mas sábio Jó! Você fez uma escolha semelhante? Você pode dizer: "nas suas pisadas os meus pés se afirmaram; guardei o seu caminho, e não me desviei dele?" (v. 11). Se você puder, louve-o por Sua graça. Se você não pode, confesse com vergonha a sua falha em se apropriar de Sua graça. Fique de joelhos, de uma vez, e confesse a Deus. Não esconda nem se recuse a revelar nada. Lembre-se, está escrito: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça" (I João 1.9). O versículo 12 não explica o seu fracasso, o meu fracasso, caro leitor? Não é porque nós não trememos diante dos mandamentos de Deus, e porque temos desmerecido tanto a Sua Palavra, que nós temos "desviado" de seu caminho? Então, vamos agora mesmo, e diariamente, buscar a graça do alto para atender os seus mandamentos e esconder a Sua Palavra em nossos corações. "Ele sabe o meu caminho" Qual o caminho que você está tomando? O caminho apertado que conduz à vida, ou o caminho espaçoso que conduz à perdição? Certifique-se sobre esta questão, caro amigo. A Escritura declara: "De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus" (Rom. 14:12). Mas você não precisa se desapontar ou ser indeciso. O Senhor declarou: "Eu sou o caminho" (João 14:6).

2. O teste divino: "Provando-me ele". "O crisol é para a prata, e o forno para o ouro; mas o SENHOR é quem prova os corações" (Provérbios 17:3). Este foi o caminho de Deus com o Israel do passado, e é o seu caminho com os cristãos de hoje. Pouco antes de Israel entrar em Canaã, Moisés reviu as sua história desde que deixou o Egito: "E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o SENHOR teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não" (Deut. 8:2). Da mesma forma, Deus nos testa, prova, nos humilha. "Provando-me ele". Se percebemos mais sobre isso, devemos suportar melhor a hora da aflição e ser mais pacientes sob os sofrimentos. As irritações da vida diária, as coisas que o incomodam muito, qual é o seu significado? Por que elas são permitidas? Aqui está a resposta: Deus está "provando" você! Essa é a explicação (em parte, pelo menos) das decepções, que esmagam suas esperanças terrenas, que causam tão grandes perdas - Deus estava, e está provando você. Deus está provando o seu temperamento, sua coragem, sua fé, sua paciência, seu amor, sua fidelidade. "Provando-me ele". Quão frequentemente os santos de Deus veem apenas Satanás como a causa de seus problemas. Eles consideram o grande inimigo como responsável por grande parte de seus sofrimentos. Mas não há conforto para o coração nisso. Não negamos que o Diabo não traz muita coisa que nos atormenta. Mas, acima de Satanás está o Senhor Todo-Poderoso! O diabo não pode tocar um fio de cabelo de nossa cabeça sem a permissão de Deus, e quando ele é permitido nos perturbar e distrair, mesmo assim, é somente para Deus usá-lo para nos "provar". Vamos aprender então, a olhar além de todas as causas secundárias e instrumentos para Aquele que faz todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade (Efésios 1:11). Isto é o que Jó fez. No capítulo de abertura do livro que leva seu nome, encontramos Satanás obtendo permissão para afligir a um servo de Deus. Ele usou os sabeus para destruir os seus rebanhos (v. 15); mandou os caldeus para matar seus servos (v. 17); ele causou um grande vento para matar seus filhos (v. 19). E qual foi a resposta de Jó? Esta: ele exclamou: "o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR" (1:21).

Jó olhou além dos agentes humanos, além de Satanás que os empregava, olhou para o Senhor que controlava a todos. Ele percebeu que era o Senhor o provando. Temos a mesma coisa no Novo Testamento. Para os santos que estavam sofrendo em Esmirna, João escreveu: "Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados" (Ap 2:10). Ser lançado na prisão era simplesmente Deus os experimentando. O quanto perdemos esquecendo disso! O que uma estada em lugares assim faz para o coração a fim de saber que não importa a forma que o teste pode tomar, não importa o agente que o transtorna, é Deus que está "tentando" Seus filhos. É um perfeito exemplo que o Salvador nos coloca. Quando Ele foi abordado no jardim e Pedro desembainhou a espada e cortou a orelha de Malco, o Salvador disse: "não beberei eu o cálice que o Pai me deu?" (João 18:11). Homens estavam prestes a lançar sua fúria terrível sobre ele, a serpente feriria o seu calcanhar, mas Ele olhou acima e além deles. Caro leitor, não importa o quão amargo seja seu conteúdo, (infinitamente menor do que aquilo que o Salvador bebeu) vamos aceitar a taça como da mão do Pai. 

Em alguns estados de espírito estamos aptos a questionar a sabedoria e o direito de Deus em nos tentar. Então, muitas vezes murmuramos diante de Seus desígnios. Por que Deus deveria colocar um fardo tão insuportável em cima de mim? Por que os os seus entes queridos dos outros são poupados, e os meus tomados? Por que a saúde e a força, talvez o dom da visão, é negado a mim? A primeira resposta a todas essas perguntas é: "ó homem, quem és tu, que a Deus replicas?"! É uma ímpia insubordinação qualquer criatura questionar as condutas do grande Criador. "Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?" (Rm 9:20). Como fervorosamente cada um de nós precisa clamar a Deus, que a Sua graça possa silenciar nossos lábios rebeldes e ainda a tempestade dentro de nossos perversos corações! Mas para a alma humilde que está em submissão perante os soberanos desígnios do sábio Deus, a Escritura dá alguma luz sobre o problema. Esta luz pode não satisfazer a razão, mas vai trazer conforto e força, quando recebida na fé e simplicidade como de uma criança. Em I Pet. 1:6 lemos: "Em que (a salvação de Deus)  vós grandemente vos alegrais,  ainda que agora importa, sendo necessário,  que estejais por um pouco contristados com várias tentações, (ou provas), para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo".

Note três coisas aqui. Primeiro, há uma necessidade de se provar a fé. Uma vez que Deus diz isso, aceitamos. Em segundo lugar, esta prova da fé é preciosa, muito mais do que o ouro. É preciosa para Deus (cf. Sl. 116:15) e ainda vai ser assim para nós. Terceiro, a presente prova tem em vista o futuro. Onde a prova foi humildemente e bravamente e suportada, haverá uma grande recompensa quando na revelação de nosso Redentor. Mais uma vez, em I Pedro 4:12, 13 lemos: "Amados, não estranheis a ardente prova que vem sobre vós para vos tentar, como se coisa estranha vos acontecesse; Mas alegrai-vos no fato de serdes participantes das aflições de Cristo, para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e alegreis". Os mesmos pensamentos são expressos aqui, como na passagem anterior. Há uma necessidade de haver "provas" e por isso estamos a considerá-las não como uma coisa estranha - devemos esperar por elas. E, também, há novamente a abençoada perspectiva de ser ricamente recompensado na volta de Cristo. Depois, há a palavra acrescentada que não só devemos enfrentar essas provações com a coragem da fé, mas nos alegrar com elas, na medida em que nos é permitido ter comunhão com "os sofrimentos de Cristo". Ele também sofreu: suficiente, então, para o discípulo ser como seu Mestre. "Provando-me ele". Caro leitor cristão, não há exceções. Deus teve apenas um Filho sem pecado, mas nunca um sem tristeza. Cedo ou tarde, de uma forma ou de outra, provas que machucam e pesares serão parte de nossa sina. "E enviamos Timóteo, nosso irmão...  para vos confortar e vos exortar acerca da vossa fé; Para que ninguém se comova por estas tribulações; porque vós mesmos sabeis que para isto fomos ordenados" (I Tessalonicenses 3:2, 3.). E novamente está escrito: "...pois que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus" (Atos 14:22). Tem sido assim em todos as épocas. Abrão foi "tentado", tentado seriamente. Assim, também, foi com José, Jacó, Moisés, Davi, Daniel, os Apóstolos, etc.

3. O resultado final. "Sairei como o ouro". Observe o tempo aqui. Jó não imaginava que ele já era como ouro puro. "Sairei como o ouro", declarou ele. Ele sabia muito bem que ainda havia muita escória nele. Ele não se gabava de de já estar perfeito. Longe disso. No capítulo final de seu livro, encontramo-lo dizendo: "me abomino" (42:6). E assim ele poderia, e assim podemos. Como descobrimos que na nossa carne não habita "bem algum", ao examinarmos a nós mesmos e nossos caminhos à luz da Palavra de Deus e contemplamos as nossas inumeráveis falhas, como nós pensamos de nossos incontáveis pecados, tanto de omissão quanto de comissão, uma boa razão temos de abominar a nós mesmos. Ah, leitor cristão, há muita escória sobre nós. Mas não será sempre assim. "Sairei como o ouro." Jó não disse, "quando ele meprovar, sairei como o ouro", ou "espero sair como o ouro", mas com total confiança e positiva garantia, ele declarou: "sairei como ouro". Mas como ele sabia disso? Como podemos ter certeza do feliz resultado disso? Porque o propósito divino não pode falhar. Aquele que começou a boa obra em nós "a aperfeiçoará" (Fp 1:6). Como podemos ter certeza do final feliz? Porque a promessa divina é certa: "O SENHOR aperfeiçoará o que me toca" (Salmo 138:8). Então, tende bom ânimo, tentado e perturbado. O processo pode ser desagradável e doloroso, mas o final é encantador e certo. "Sairei como o ouro." Isto foi dito por alguém que conhecia a aflição e a tristeza como poucos entre os filhos dos homens. No entanto, apesar de suas provas de fogo ele era otimista. Que esta linguagem triunfante seja nossa. "Sairei como o ouro" não é a linguagem da vanglória carnal, mas a confiança de alguém cuja mente estava firme em Deus. Não haverá crédito para a nossa conta - toda a glória pertence ao Refinador Divino. Tiago 1:12.

Para o presente restam duas coisas: primeiro, o amor é o termômetro Divino, enquanto estamos no fogo da prova, "E assentar-se-á (a paciência da graça divina) como fundidor e purificador de prata ", etc (Mal. 3:3). Segundo, o próprio Senhor está conosco na fornalha ardente, como foi com os três jovens hebreus (Dn 3:25). Para o futuro, isto é certo: a coisa mais maravilhosa no céu não serão as ruas ou as harpas de ouro, mas as almas de ouro sobre a qual estará estampada a imagem de Deus - "predestinadas para serem conformes à imagem de seu Filho!" Louve a Deus por essa gloriosa perspectiva, essa vitoriosa conclusão, esse maravilhoso objetivo.

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 7 - A CORREÇÃO DIVINA

 

"E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, E não desmaies quando por ele fores repreendido" (Hebreus 12:5)


É de vital importância que nós aprendamos a fazer uma distinção clara entre a punição divina e o castigo divino – é importante para manter a honra e a glória de Deus, e para a paz de espírito do cristão. A distinção é muito simples, mas é muitas vezes perdida de vista. O povo de Deus nunca pode por qualquer possibilidade de ser punido por seus pecados, pois Deus já os puniu na cruz. O Senhor Jesus, nosso abençoado substituto, sofreu toda a penalidade de nossa culpa, pelo que está escrito "o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado". Nem a justiça nem o amor de Deus permitiriam a Cristo pagar exatamente de novo o que Ele já satisfez ao máximo. A diferença entre punição ecastigo não está na natureza dos sofrimentos do aflito: é importante ter isto em mente. Há uma tripla distinção entre os dois. 

Primeiro, o caráter no qual Deus age. No primeiro os atos de Deus como juiz, no segundo como Pai. Sentença de punição é o ato de um juiz, uma sentença penal é passada aos responsáveis ​ ​pela culpa. Punição nunca pode cair sobre o filho de Deus neste sentido judicial, porque sua culpa foi toda transferida para Cristo: "Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro" Mas, enquanto os pecados do crente não podem ser punidos, enquanto o cristão não pode ser condenado (Rm 8:3), ele pode ser castigado. O cristão ocupa uma posição completamente diferente da do não-cristão: ele é um membro da família de Deus. A relação que hoje existe entre ele e Deus é o de pai e filho; e como um filho que ele deve ser disciplinado por má conduta. A insensatez está ligada aos corações de todos os filhos de Deus, e a vara é necessária para repreender, para subjugar, para humilhar. 

A segunda distinção entre punição divina e correção divina reside nos recipientes de cada um. Os objetos do primeiros são Seus inimigos. Os objetos deste último são Seus filhos. Como o Juiz de toda a terra, Deus ainda vai se vingar de todos os Seus inimigos. Assim como o Pai de Sua família, Deus mantém a disciplina sobre todos os Seus filhos. O primeiro é judicial, o outro parental. 

A terceira distinção é visto no intento de cada uma: uma é retributiva, a outra protetiva. Uma flui de Sua ira, a outra de Seu amor. Punição divina nunca é enviada para o bem dos pecadores, mas para a honra da lei de Deus e a demonstração de Seu poder. Mas a correção divina é enviada para o bem-estar de seus filhos: "Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade" (Hb 12:9-10). 

A distinção acima deve de uma vez repreender os pensamentos que são tão acolhidos em geral entre os cristãos. Quando o crente está sofrendo sob0 a vara ele não diz "Deus está agora me punindo pelos meus pecados". Isso nunca poderá ser. Isso é a coisa mais desonrosa para o sangue de Cristo. Deus o está corrigindo em amor, não o ferindo em ira. Também não deve o cristão considerar a correção do Senhor como uma espécie de mal necessário para o qual ele deve se curvar tão submissamente quanto possível. Não, isso procede da bondade de Deus e da Sua fidelidade, e é uma das maiores bênçãos para as quais temos que agradecê-Lo. Correção divina evidencia nossa filiação: o pai de família não se preocupa com aqueles do lado de fora, mas com aqueles de dentro, que orienta e disciplina para fazê-los conforme a sua vontade. Correção é proporcionada para o nosso bem, para promover os nossos maiores interesses. Olhe para além da vara na mão do Todo-Poderoso que a segura! 

Os cristãos hebreus a quem esta epístola foi primeiramente dirigida estavam passando por um grande combate de aflições, e estavam conduzindo-se miseravelmente. Eles eram o pequeno remanescente da nação judaica que haviam crido em seu Messias durante os dias de Seu ministério público, mais os judeus que foram convertidos sob a pregação dos apóstolos. É muito provável que eles tinha a expectativa de que uma vez estabelecido o Reino Messiânico na terra eles seriam alocados como os chefes, nas posições de honra nela. Mas o milênio não tinha começado, e sua própria sorte tornou-se cada vez mais amarga. Eles não só foram odiados pelos gentios, mas desprezados por seus conterrâneos incrédulos, e tornou-se uma questão difícil para eles até mesmo se exporem. A Providência mostrava um rosto carrancudo. Muitos que tinham feito uma profissão do Cristianismo tinham voltado ao judaísmo e estavam prosperando temporariamente. Como as aflições dos judeus crentes aumentava, eles também foram tentados a virar as costas para a nova fé. Eles estavam errados em abraçar o cristianismo? O céu estava descontente porque eles se identificavam com Jesus de Nazaré? O seu sofrimento não mostrava que Deus não os considerava com favor? 

Agora é mais instrutivo e abençoado ver como o Apóstolo encontrou o raciocínio incrédulo dos seus corações. Ele apelou para suas próprias Escrituras! Ele lembrou-lhes uma exortação encontrada em Provérbios 3:11-12, e aplicou-a ao seu caso. Observe primeiro, as palavras que colocamos em itálico: "E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos". Isso mostra que as exortações do Antigo Testamento não se restringiam aos que viviam sob a antiga aliança: elas se aplicam com igual força e direção para aqueles de nós que vivem sob a nova aliança. Não nos esqueçamos de que "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa" (2 Tm. 3:16). O Antigo Testamento tanto quanto o Novo Testamento foi escrito para nosso ensino e admoestação. Em segundo lugar, observe o tempo do verbo em nosso texto de abertura: "E já vos esquecestes da exortação que argumenta" O Apóstolo citou uma frase da Palavra escrita mil anos antes, ainda que ele não diga "que argumentou", mas "que argumenta". O mesmo princípio é ilustrado na medida em que sete vezes se lê: "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz (e não"disse") às igrejas", de Apocalipse 2 e 3. As Sagradas Escrituras são uma Palavra viva o qual Deus está falando hoje! Considerem-se agora as palavras "já vos esquecestes". Não era que estes cristãos hebreus não conheciam Provérbios 3:11 e 12, mas eles tinham se esquecido dele. Eles haviam esquecido a Paternidade de Deus e sua relação de Dele como Seus filhos queridos. Em conseqüência, eles interpretado mal tanto a forma e intento dos tratamentos atuais de Deus com eles, não viram Sua providência à luz do Seu amor, mas as consideraram como sinais de sua insatisfação ou como provas de Seu esquecimento. Consequentemente, em vez de alegre submissão, havia desânimo e desespero. 

Aqui está uma lição mais importante para nós: não devemos interpretar as misteriosas providências de Deus pela razão ou observação, mas pela Palavra. Quantas vezes "esquecemos" a exortação que argumenta a nós como filhos - "Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, E não desmaies quando por ele fores repreendido" Infelizmente não há nenhuma palavra no nosso idioma que seja capaz de fazer justiça ao termo grego aqui. "Paideia", que é traduzida como "correção" é apenas outra forma de "paidion", que significa "crianças pequenas", sendo a afável palavra empregada pelo Salvador em João 21:5 e Hebreus 2:13. Pode-se ver de relance a conexão direta que existe entre as palavras "discípulo" e "disciplina": igualmente junto ao grego está a relação entre "crianças" e "correção". Filhos treinados serão filhos melhores. Isso é referência à educação de Deus, o cuidado e a disciplina de seus filhos. É a correção sábia e amorosa do Pai que está em vista. É verdade que muito da correção é a vara na mão do Pai corrigindo Seu filho desobediente. Mas é um grave erro limitar nossos pensamentos a um único aspecto do assunto. Correção não significa sempre a flagelação de Seus filhos desviados. Alguns dos mais piedosos santos do povo de Deus, alguns dos mais obedientes de seus filhos, foram e são os maiores sofredores. Muitas vezes as correções de Deus em vez de ser retributivas são corretivas. Elas são enviadas para esvaziar-nos da auto-suficiência e justiça própria: elas são dadas para conhecer as nossas transgressões escondidas, e para nos ensinar sobre a praga dos nossos próprios corações. Ou ainda, correções são enviadas para fortalecer a nossa fé, para nos elevar a níveis superiores de experiência, para nos trazer para uma condição de utilidade. Ainda mais uma vez, correção divina é enviado como um preventivo, para nos afastar do orgulho, para nos salvar de sermos indevidamente exultantes com o sucesso no serviço de Deus. Vamos considerar, brevemente, quatro exemplos completamente diferentes. 

DAVI. No seu caso a vara veio sobre ele por pecados graves, por maldade explícita. Sua queda foi ocasionada pela autoconfiança e justiça própria. Se o leitor se diligentemente comparar os dois cânticos de Davi registrados em 2 Samuel 22 e 23, a um escrito perto do início de sua vida, o outro perto do fim, vai ficar impressionado com a grande diferença de espírito manifestado pelo escritor em cada um. Leia 2 Samuel 22:22-25 e você não vai se surpreender que Deus o afligiu para que ele tivesse essa queda. Em seguida, vire para o capítulo 23, e observe a abençoada mudança. No início do versículo 5, há uma confissão de coração partido pelo fracasso. Nos versículos 10-12 há uma confissão que glorifica a Deus, atribuindo a vitória ao Senhor. A flagelação severa de Davi não foi em vão. 

Jó. Provavelmente ele provou de todo tipo de sofrimento que cai sobre o homem: lutos de família, perda de bens, aflições corporais graves que chegavam rapidamente, uma após outra. Mas o propósito de Deus em tudo foi que Jó devesse ser beneficiado e ser um grande participante da Sua santidade. Não havia nem um pouco de auto-satisfação e justiça própria em Jó no início. Mas no final, quando foi colocado face a face com o Santo, ele se "abominou" (42:6). No caso de Davi foi a correção foi retributiva, em Jó corretiva. 

ABRAÃO. Nele vemos uma ilustração de um aspecto totalmente diferente de correção. A maioria dos provações a que foi submetido não foram nem por causa dos pecados abertos nem pela correção de falhas internas. Pelo contrário, elas foram enviadas para o desenvolvimento de graças espirituais. Abraão foi duramente provado de várias maneiras, mas foi a fim de que a fé pudesse ser fortalecida e que a paciência pudesse ter a sua obra perfeita nele. Abraham foi desapegado das coisas deste mundo, para que pudesse desfrutar mais comunhão com o Senhor e se tornar o "amigo" de Deus. 

PAULO. "E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar"  (2 Coríntios. 12:7) . Esse "espinho" não foi enviado por causa de falha e pecado, mas como um preventivo contra o orgulho. Observe as conjunções “para que” e “a fim de que”, tanto no início quanto no final do verso. O resultado deste "espinho" foi que o amado apóstolo se tornou mais consciente de sua fraqueza. Assim, a correção tem por um de seus principais objetos a quebra da auto-suficiência, a trazer-nos ao fim de nós mesmos. Agora, em vista desses vários aspectos diferentes de correções que são retributivas, corretivas, educativas e preventivas, como somos incompetente para diagnosticar, e quão grande é a loucura de pronunciar um juízo sobre os outros! Não vamos tirar conclusões quando vemos um irmão cristão sob a vara de Deus que ele está necessariamente levando uma lição por seus pecados. Em nossa próxima meditação sobre a correção divina, vamos considerar o espírito no qual a correção divina é para ser recebida.

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 8 - RECEBENDO A CORREÇÃO

"Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, E não desmaies quando por ele fores repreendido" 
(Hebreus 12:5)

Nem toda correção é santificada pelos que a recebem. Alguns são endurecidos, outros esmagados debaixo dela. Muito depende do espírito com que as aflições são recebidas. Não há virtude em provações e problemas em si mesmos: é somente como eles são abençoados por Deus que o cristão é beneficiado. Como Hebreus 12:11 nos informa, aqueles que são "exercitados" sob a vara de Deus são os que produzem "um fruto pacífico de justiça". Uma consciência sensível e um coração terno são os adjuntos necessários. Em nosso texto o cristão é advertido contra dois perigos totalmente diferentes: não desprezar e não se desesperar. Estes são dois extremos contra a qual é sempre necessário manter um aguçado olhar vigilante. Assim como toda a verdade da Escritura tem sua contraparte de equilíbrio, assim todo o mal tem seu oposto. Por um lado há um espírito altivo, que zomba da vara, uma vontade obstinada que se recusa a ser humilhada desta forma. Por outro lado, há um desfalecimento que afunda totalmente sob ela e dá lugar ao desespero. Spurgeon disse: "O caminho da justiça é uma passagem difícil, entre duas montanhas de erro, e o grande segredo da vida do cristão é descansar de seu o caminho ao longo do estreito vale". 

I. Desprezando a vara. Há várias maneiras em que os cristãos podem "desprezar" as correções de Deus. Podemos citar quatro delas: 

1. Por insensibilidade. Ser impassível é a política da sabedoria carnal - fazer o melhor de um mau trabalho. O homem do mundo não conhece plano melhor do que cerrar os dentes e demonstrar valentia externa. Não tendo o Divino Consolador, Conselheiro ou médico, ele cai sobre seus próprios pobres recursos. É indizivelmente triste quando vemos um filho de Deus conduzir-se como um filho do diabo. Para um cristão o desafiar as adversidades é "desprezar" a correção. Em vez de endurecer-se para suportar estoicamente, deve haver um enternecimento do coração. 

2. Por reclamar. Isto é o que os hebreus fizeram no deserto, e ainda há muitos murmuradores no acampamento de Israel. Uma pouco de doença, e nos tornamos tão irritadiços que nossos amigos ficam até com medo de chegar perto de nós. Alguns dias na cama, e lamuriamos e bufamos como um novilho não domado. Perguntamos de forma impertinente: Por que essa aflição? O que eu fiz para merecer isso? Olhamos ao redor com olhos invejosos, e ficamos descontentes porque os outros estão carregando uma carga mais leve. Cuidado, meu leitor: isso pesa contra os murmuradores. Deus sempre corrige duas vezes se não somos humilhados na primeira. Lembre-se de quanta escória ainda está entre o ouro. Veja as corrupções do seu próprio coração, e maravilhe-se que Deus não tem ferido você duas vezes mais severamente. "Filho meu, não desprezes a correção do Senhor". 

3. Por críticas. Quantas vezes questionamos a utilidade da correção. Como cristãos, parecemos ter pouco mais de bom senso espiritual do que tínhamos quando crianças a sabedoria natural. Como crianças pensávamos que a vara era a coisa menos necessária em casa. É assim com os filhos de Deus. Quando as coisas correm como nós gostamos, quando algumas bênçãos temporais inesperadas são concedidas, não temos dificuldade em atribuir tudo a um tipo de providência. Mas quando nossos planos são frustrados, quando as perdas são nossas, é muito diferente. No entanto, não está escrito: "Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas" (Isaías 45:7)? Quantas vezes a coisa formada está pronta para reclamar: "Por que me fizeste assim?" Dizemos, não posso ver como isso pode possivelmente beneficiar a minha alma. Se eu tivesse uma saúde melhor eu poderia participar da casa de oração mais frequentemente! Se eu tivesse sido poupado daquelas perdas no negócio, eu teria mais dinheiro para a obra do Senhor! O que de bom pode vir dessa calamidade? Como Jacó, gritamos: "Todas estas coisas vieram sobre mim". O que é isso, senão"desprezar"a vara? A tua ignorância desafia a sabedoria de Deus? A tua miopia coloca em dúvida a onisciência? 

4. Por descuido. Assim é que muitos falham em corrigir seus caminhos. A exortação de nosso texto é muito necessária para todos. Há muitos que têm "desprezado" a vara, e em consequência, eles não têm tido benefício com isso. Muitos cristãos tem sido corrigidos por Deus, mas em vão. Doenças, derrotas, privações chegam, mas não tem sido santificadas pela oração e auto-exame. Oh irmãos e irmãs, prestem atenção. Se Deus está corigindo a ti "Considerai os vossos caminhos" (Ageu 1:5), "Pondera a vereda de teus pés" (Provérbios 4:26). Tenha certeza de que há alguma razão para a correção. Muitos cristãos não tão severamente corrigidos se inquirissem a causa da mesma. 

II. Desmaiando sob a vara. Tendo sido advertido contra o "desprezo" da vara, agora somos exortados a não dar lugar ao desespero quando sob ela. Há pelo menos três maneiras pelas quais o cristão pode "desmaiar" sob a correção do Senhor: 

1. Quando ele abre mão de todos os esforços. Isto é feito quando caímos no desalento. O ferido conclui que é mais do que ele pode suportar. Seu coração cai diante dela; a escuridão o engole, o sol da esperança é eclipsado, e a voz de ação de graças é silenciada. O "desmaiar" significa tornar-nos inaptos para o cumprimento de nossos deveres. Quando uma pessoa desmaia, ele é considerada inerte. Quantos cristãos estão prontos para abandonar completamente a luta quando a adversidade entra em sua vida. Quantos se tornam inertes quando o problema vem na sua direção. Quantos, pela sua atitude, dizem, a mão de Deus pesa sobre mim: não posso fazer nada. Ah, meu amado, "não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança" (I Tessalonicenses 4:13). "...não desmaies quando por ele fores repreendido". Quando estiver envolvido com essas coisas : Reconheça a mão do Senhor nisso. Lembre-se de tuas aflições estão entre as "todas as coisas" que cooperam para o bem. 

2.Quando ele questiona sua filiação. Não há poucos cristãos que, quando a vara desce sobre eles, concluem que eles não são filhos de Deus, afinal. Esquecem-se que está escrito "Muitas são as aflições do justo" (Sl 34:19), e que "por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus"(Atos 14:22). Alguém pode dizer: "Mas se eu fosse Seu filho eu não deveria estar neste estado de pobreza, miséria, dor". Veja o versículo 8: "Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos". Aprenda, então, a olhar as correções como provas do amor de Deus te purgando, podando, purificando. O pai de família não se preocupa muito com os de fora de sua casa: são os que estão dentro que ele guarda e guia, alimenta e está e se conformam com sua vontade. Assim é com Deus. 

3.Quando ele se desespera. Alguns alimentam a fantasia que eles nunca irão sair de seus problemas. Alguém diz, eu tenho orado e orado, mas as nuvens não se dissipam. Então conforta-se com esta reflexão: É sempre a hora mais escura que precede o amanhecer. Portanto, "não desmaie" quando fores repreendido por Ele. Mas, outro diz, eu tenho confiado em suas promessas, e as coisas não melhoram. Eu pensei que Ele libertou os que chamou a Ele; chamei, e ele não respondeu, e eu temo que ele nunca fará. O que, filho de Deus, fala de teu Pai, assim! Você diz que ele nunca vai deixar de ferir porque Ele tem ferido você por tanto tempo. Ao invés, diga que Ele já feriu por tanto tempo que devo ser liberto em breve. Não desprezeis: não desfaleça. Que a graça divina possa preservar tanto o escritor quanto o leitor de qualquer extremo pecaminoso.

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 9 - A HERANÇA DO SENHOR

"Porque a porção do SENHOR é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança" (Dt 32:9)


Este versículo traz diante de nós uma das mais abençoadas e maravilhosas verdades, tão maravilhosa que nenhuma mente humana poderia ter inventado. Ela fala do poderoso Deus tendo uma "herança", e nos diz que esta herança está em seu próprio povo! Deus se recusou a tomar este mundo para Sua herança – pois ele será queimado. Nem o céu, povoado de anjos, satisfazem Seu coração. Na eternidade passada Jeová disse, a título de antecipação que se encheria "de prazer com os filhos dos homens" (Provérbios 8:31). 

Esta não é de nenhuma maneira a única escritura que ensina que a herança de Deus está em Seus santos. No Salmo 135: 4 lemos: "Porque o SENHOR escolheu para si a Jacó, e a Israel para seu próprio tesouro". Em Malaquias 3:17 o Senhor fala de Seu povo como suas jóias – tão "especiais" que as maiores manifestações de Seu amor são feitas para eles, os mais ricos dons de Sua mão são agraciados a eles, as mansões no céu estão preparadas e reservadas para eles! A mesma maravilhosa verdade é ensinada no Novo Testamento. Em Efésios 1 vemos o apóstolo Paulo orando para que Deus desse ao seu povo o espírito de sabedoria e de revelação para o pleno conhecimento dele: os olhos do seu entendimento serem iluminados para que eles pudessem saber "qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos" (v. 18). Esta é uma expressão verdadeiramente surpreendente; não só os santos obtem uma herança em Deus, mas Ele também assegura uma herança neles! Como irresistível é o pensamento de que o grande Deus deve se considerar rico por causa da nossa fé, nosso amor e adoração! Certamente esta é uma das verdades mais maravilhosas reveladas nas Sagradas Escrituras, que Deus toma os pobres pecadores e os torna sua "herança"! Ainda hoje é assim. 

​​Mas que necessidade tem Deus de nós? Como podemos enriquecê-lo? Ele não tem toda a sabedoria, graça, poder e glória? Tudo isso é verdade, mas há algo que Ele precisa, sim, necessita, a saber, vasos. Assim como o sol precisa da terra para brilhar sobre ela, assim Deus precisa de vasos para encher, vasos através do qual a Sua glória pode ser refletida, vasos em que as riquezas da sua graça possam ser generosamente preenchidos. Note que o povo de Deus não é apenas chamado de "porção", Sua "jóia", mas também Sua "herança". Isto sugere três coisas. Primeiro, uma "herança é obtida através da morte: assim, a herança de Deus é garantida a Ele pela morte de Seu Filho amado. Em segundo lugar, uma "herança" denota perpetuidade - "para um homem e seus herdeiros para sempre", são os termos frequentemente usados. Terceiro, uma "herança" é para a posse, é algo que é celebrado, vivido, apreciado. Vamos agora considerar cinco coisas sobre a herança de Deus.


1.Deus propôs ter uma herança: "Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo ao qual escolheu para sua herança" (Sl 33:12). A "nação" aqui é idêntica à nação santa, a "geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido" de I Pedro 2:9. Este povo favorecido foi escolhido por Deus para ser Sua herança: não foi escolhido por Ele tardiamente, mas decretado por Ele na eternidade passada. Desde a fundação do mundo Deus fixou em seu coração em tê-los para Si mesmo. 

2.Deus comprou o Seu povo para uma herança. Em Efésios 1:14 nos é dito que o Espírito Santo é o "penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória". Então, novamente em Atos 20:28 lemos que "a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue". Deus não só resgatou o seu povo da escravidão e da morte, mas para Si mesmo. 

3.Deus vem e habita no meio da sua herança: "Pois o SENHOR não rejeitará o seu povo, nem desamparará a sua herança" (Sl 94:14), uma prova clara de que essa escritura não está se referindo a nação de Israel segundo a carne. Assim como o Senhor habitou no meio dos hebreus resgatados, Ele agora habita em Sua igreja, tanto coletivamente quanto individualmente. "Não sabeis vós (plural) que sois o templo de Deus eque o Espírito de Deus habita em vós?" (I Coríntios 3:16). "Ou não sabeis que o vosso corpo (singular) é o templo do Espírito Santo" (I Coríntios. 6:19). 

4.Deus embeleza a sua herança: Assim como um homem que herdou uma casa ou uma propriedade e ao tomar posse dela faz melhorias, assim Deus está agora aperfeiçoando o Seu povo para Si mesmo. Ele que começou a obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo (Fp 1:6). Ele está agora nos conformando à imagem de Seu Filho: cada cristão pode dizer com o salmista: "O SENHOR aperfeiçoará o que me toca" (Salmos 138:8). A vontade de Deus não estará satisfeita até que tenhamos sido glorificados. O Senhor Jesus Cristo "transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas" (Fp 3:21). 
"... quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele" (I João 3:2). 

5. E o que dizer do futuro? Deus ainda vai ter, viver, desfrutar de sua herança. Nas intermináveis eras ​​ainda a virem, Deus vai dar a conhecer as "riquezas da sua glória" nos vasos de misericórdia (Romanos 9:23). A glória que Deus viverá - como uma herança, surgirá de Seu povo. Que declaração maravilhosa é a que se encontra no final de Efésios 2, onde os santos são comparados a um edifício "bem ajustado, (que) cresce para templo santo no Senhor", de quem se disse, "No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito". Maravilhoso e glorioso é o quadro apresentado diante de nós em Apocalipse 21: "E VI um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido. E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus" (vv. 1-3). 

Que declaração maravilhosa é essa, em Sofonias 3:17: "O SENHOR teu Deus, o poderoso, está no meio de ti, ele salvará; ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo". O grande Deus ainda vai dizer: "Estou satisfeito: aqui vou descansar. Esta é minha herança que terei para sempre, sim, a glória que tenho agraciado aos pecadores redimidos". Certamente temos que dizer com o salmista: "Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir" (139:6). Que a graça divina nos capacite a sermos dignos da vocação a que somos chamados.

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 10 - DEUS GARANTE A SUA HERANÇA

 

"Achou-o numa terra deserta, e num ermo solitário cheio de uivos; cercou-o, instruiu-o, e guardou-o como a menina do seu olho" (Deuteronômio 32:10)


No verso anterior temos a incrível afirmação de que a "porção" do Senhor é o Seu povo, e que não pode haver um mal entendimento acerca disso, a mesma verdade é expressa de outra forma: "Jacó é a parte da sua herança". Aqui em nosso texto aprendemos algo das dores que Deus toma para garantir sua herança. Existem quatro coisas a serem notadas e apreciadas. 

1. Jeová encontrando seu povo. "Achou-o numa terra deserta". Isso apenas mostra que a palavra "achar" necessariamente implica em uma "busca". Aqui, então, temos diante de nossos olhos a surpreendente demonstração de um Deus que busca! O pecado entrou entre a criatura e o Criador, causando alienação e separação. Não só isso, mas, como resultado da queda, todo ser humano entra neste mundo com uma mente que está em "inimizade contra Deus". Consequentemente, não há quem busque a Deus. Portanto, Deus, em Sua maravilhosa condescendência e graça, torna-se o Buscador. A palavra "achar", não só implica em uma busca, mas, quando consideramos o caráter pecaminoso e indigno dos objetos de sua busca, isso também fala do amor do Buscador. O grande Deus se torna o Buscador, porque Ele pôs Seu coração naqueles a quem Ele escolheu para serem os recipientes de Sua graça soberana. Deus colocou o seu coração em Abraão e, portanto, Ele O procurou e achou em meio aos idólatras pagãos em Ur, na Caldéia. Deus colocou seu coração sobre Jacó, e por isso Ele O procurou e achou como um fugitivo da vingança de seu irmão, quando ele estava dormindo sobre a terra. Assim também foi com Moisés, pois Ele O tinha amado com um amor eterno para procurá-Lo e achá-Lo em Midiã, "atrás do deserto". Igualmente isso é verdade com todos os cristãos verdadeiros no mundo de hoje: "Fui achado pelos que não me buscavam, Fui manifestado aos que por mim não perguntavam" (Rom. 10:20). Deus "achou" você? Para ajudá-lo a responder a esta pergunta, pondere sobre o restante da primeira cláusula do nosso texto: "Achou-o numa terra deserta, e num ermo solitário cheio de uivos". É assim que este mundo parece a você?  Você descobriu que todas as coisas sob o sol são apenas "vaidade e aflição de espírito"?  Você geme diariamente diante do que testemunha em toda parte? Você acha que o mundo não fornece nada para satisfazer o coração, sim, nada mesmo que seja útil? É o mundo, realmente, um "ermo solitário cheio de uivos" para você? Apliquemos um segundo teste: quando Deus verdadeiramente "acha" um dos Seus Ele se revela. Ele concede à alma uma compreensão de Sua majestade soberana, Seu impressionante poder, Sua santidade inefável, Sua maravilhosa misericórdia. Ele tem, portanto, se tornado conhecido a você? Ele tem dado a você, em qualquer medida, uma visão de Sua glória divina, Sua graça soberana, Seu maravilhoso amor? Ele tem? "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (João 17:3). Aqui, um terceiro teste: Se Deus revelou a Si mesmo, Ele lhe deu uma visão de si mesmo, pois na Sua luz "vemos a luz". A experiência mais humilhante, dolorosa, e para nunca ser esquecida é esta. Quando Deus se revelou a Abraão ele disse: "sou pó e cinza" (Gen. 18:27). Quando foi revelado a Isaías, o profeta disse "Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros" (Isa. 6:5). Quando Deus se revelou a Jó, ele disse: "Por issome abomino e me arrependo no pó e na cinza" (Jó 42:6) – observe, não apenas eu abomino os meus caminhos ímpios, mas a minha própria maldade. É esta a sua experiência, meu leitor? Você já descobriu sua depravação e condição perdida? Você descobriu que não há uma única coisa boa em você? Você já se viu estar em condições de apenas merecer o inferno? Realmente? Então isso é uma boa evidência, sim, é prova positiva de que o Senhor Deus "achou" você. 

2. Jeová cercando seu povo. "cercou-o".  "Achar" não é o fim, mas apenas o começo do relacionamento de Deus com os Seus. Tendo encontrado-o, Ele permanece para nunca mais deixá-lo. Agora que Ele encontrou Seu filho desgarrado Ele o ensina a andar no caminho estreito. Há uma bela palavra de Deus "cercando" em Oséias 11:3: "Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomando-os pelos seus braços".Assim como uma mãe toma seu pequeno, cujos pés estão ainda muito fracos e não treinados para caminhar sozinhos, assim o Senhor toma Seu povo em seus braços e os leva nos caminhos da justiça por amor do Seu nome. Essa é Sua promessa: "Os pés dos seus santos guardará" (I Samuel 2:9). Existe um triplo "cercamento" do Senhor: Evangélico - O Senhor Jesus declarou: "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim" (João 14:6). Mas, novamente Ele disse: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer" (João 6:44). Aqui, então, é como Deus cerca: Ele leva o pobre pecador a Cristo. Você, meu leitor, foi trazido ao Salvador? Cristo é sua única esperança? Você está confiando na suficiência de Seu precioso sangue? Se assim for, que causa você tem para louvar a Deus por levá-lo a Seu Filho abençoado! Doutrinária - O Senhor Jesus declarou: "Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade" (João 16:13). Não somos capazes de descobrir ou entrar na verdade por nós mesmos, portanto, temos que ser guiados para ela. "Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus" (Rm 8:14). É Ele quem nos faz deitar nos "verdes pastos" da Escritura e que nos conduz para as "águas tranquilas" de Suas promessas. Quão gratos devemos ser para cada raio de luz que foi concedido pela lâmpada da Palavra de Deus. Providencial - "Todavia tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os deixaste no deserto. A coluna de nuvem nunca se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes iluminar; e isto pelo caminho por onde haviam de ir" (Neemias 9:19). Assim como o Senhor conduziu Israel no passado, assim hoje Ele nos conduz passo a passo, através do deserto deste mundo. Que misericórdia é esta. "Os passos de um homem bom são confirmados pelo SENHOR, e deleita-se no seu caminho"(Sl 37:23). Sim, todos os detalhes de nossas vidas são regulados pelo Altíssimo. 
Toda a minha existência está em tuas mãos,todos os eventos sob teu comando, tudo começa e termina, para ser do agrado de nosso Amigo Celestial. 

3. Deus instruindo o Seu Povo. "instruiu-o". Asim Ele faz. Foi para instruir-nos que Deus, em Sua grande misericórdia, nos deu as Escrituras. Ele não nos deixou a tatear o nosso caminho na escuridão, mas forneceu-nos uma lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho. Também não estamos abandonados à nossa própria sorte sem ajuda no estudo da Palavra. Nós temos o apoio de um instrutor infalível. O Espírito Santo é o nosso mestre: "E vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas as coisas... E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine" (I João 2 : 20, 27). O entendimento correto da verdade de Deus não é uma realização intelectual, mas uma bênção a nós conferida por Deus. Porque está escrito: "O homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu" (João 3:27). Não importa o quão legível uma carta possa ser escrita, se o destinatário for cego, ele não pode lê-la. Assim nos é dito, "o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente " (I Coríntios 2:14.). E discernimento espiritual é dado apenas pelo Espírito Santo. "Instruiu-o". Como Deus suporta pacientemente a nossa estupidez! Como graciosamente Ele repete "mandamento sobre mandamento, regra sobre regra"! No entanto, lentos como somos, Ele persevera conosco, pois Ele prometeu aperfeiçoar o que nos toca (Salmo 138:8). Ele tem "instruído", você, meu leitor? Ele tem ensinado você a depravação total do homem e a total incapacidade do pecador em salvar a si mesmo? Ele tem ensinado a humilhante verdade "Necessário vos é nascer de novo", e que a regeneração é obra exclusiva de Deus e o homem não tem nenhuma parte nela (João 1:13). Ele revelou a você o valor infinito e suficiência do sacrifício expiatório de Cristo, que Seu sangue nos limpa "de todo pecado"? Então que causa você tem para ser grato por tal instrução divina. 

4. Deus Preserva o Seu Povo. "guardou-o como a menina do seu olho". A religião de condições, contingências e incertezas não é o cristianismo - seu nome técnico é arminianismo, e arminianismo é uma filha de Roma. É o que desonra a Deus, repudia a Escritura. É o sistema destruidor de almas do papado, cujo pai é o Diabo, que enaltece o mérito humano, a capacidade da criatura, as obras de supererrogação e é uma porção do mais blasfemo lixo, e deixa sua cópias cegas nos nevoeiros e pântanos da incerteza. O cristianismo lida com certezas que se originaram no propósito e amor de um Deus imutável, que quando Ele começa a boa obra sempre a completa. "Porque o SENHOR ama o juízo e não desampara os seus santos; eles são preservados para sempre" (Sl 37:28).  Que benção é essa! Será que Jeová" abandonou" Noé quando ele ficou bêbado? Não, de fato. Ele "abandonou" Abraão quando ele mentiu para Abimeleque? Não, de fato. Ele "abandonou" Moisés por ferir a rocha com raiva? Não, na verdade, como sua aparição no Monte da Transfiguração prova abundantemente. Ele "abandonou" Davi quando cometeu os pecados que desde então tem dado ocasião para os inimigos do Senhor blasfemar? Não, de fato. Ele o levou ao arrependimento, o levou a confessar a sua terrível iniquidade, e em seguida enviou um dos seus servos, para dizer: "o SENHOR perdoou o teu pecado". "O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita. O sol não te molestará de dia nem a lua de noite. O SENHOR te guardará de todo o mal; guardará a tua alma. O SENHOR guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre" (Salmo 121:5-8) Aqui estão as verdades da aliança do nosso Deus fiel. Aqui estão os infalíveis "compromissos" do Senhor triúno: aqui estão as promessas daquele que não pode mentir. Note que não havia "se" ou pré-condições, mas as declarações incondicionais e sem reservas do Altíssimo. Nenhuma circunstância pode colocar o crente fora do alcance da preservação divina. Nenhuma mudança pode alterar ou afetar esta certeza divina. Riqueza pode iludir, a pobreza pode desnudar, Satanás pode tentar, corrupções internas podem incomodar, mas nada pode destruir ou levar à destruição de uma única ovelha de Cristo; não, todas essas coisas só servem para mostrar mais claramente e mais gloriosamente a mão preservadora do nosso Deus. Somos "guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo" (1 Pedro 1:5). A raiva dos monarcas pagãos, com sua cova dos leões e fornalhas ardentes, podem ser empregadas para tentar a fé dos eleitos de Deus, mas destruí-los, prejudicá-los, eles não podem. Oh, irmãos em Cristo, que causa temos para louvar o Triúno Jeová que nos acha, instrui e preserva!

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 11 - O PRANTO

"Bem-aventurados os que choram" (Mateus 5:4)


O choro é desagradável e irritante para a pobre natureza humana. Diante do sofrimento e da tristeza nossos espíritos instintivamente se dobram. Por natureza, buscamos a alegria e felicidade. O nosso texto apresenta uma anomalia ao não regenerado, ainda que seja uma doce música para os ouvidos dos eleitos de Deus. Se são "bem-aventurados", por que "choram"? Se eles "choram" como podem ser "bem-aventurados"? Apenas um filho de Deus tem a chave para este paradoxo. Quanto mais refletimos sobre o nosso texto mais somos obrigados a exclamar "Nunca homem algum falou assim como este homem"! "Bem-aventurados (felizes) os que choram" está em completo desacordo com a lógica do mundo. Os homens têm em todos os lugares e em todas as épocas considerado prósperos e bem sucedidos aqueles que são felizes, mas Cristo diz que felizes são os pobres de espírito e que choram. Agora é óbvio que não é toda espécie de choro que é aqui referido. Existe uma tristeza que "opera a morte". O choro ao qual Cristo promete conforto deve ser restrito ao que é espiritual. O choro, que é bendito é o resultado de uma percepção da santidade e da bondade de Deus que surge do um sentimento de nossa própria maldade – a depravação das nossas naturezas, a enormidade e culpa de nossa conduta e as tristezas por nossos pecados com um pezar piedoso. Nós no nosso passado, que as oito bem-aventuranças são dispostas em quatro pares; a prova disso será fornecidas à medida que prosseguimos. 

A primeira da série é a bênção que Cristo pronunciou sobre aqueles que são pobres de espírito, que nos leva a dizer, que eles foram despertados para a consciência de sua própria nulidade e vazio. Agora, a transição de tal pobreza para o choro é fácil de seguir, na verdade, segue-se tão intimamente que é de fato o seu companheiro. 
O choro que é aqui referido é manifestamente mais do que a de aflição luto ou perda. É o choro pelo pecado. É o choro do sentimento da miséria de nosso estado espiritual, e sobre as iniquidades que fazem separação entre nós e Deus; choro pela moralidade em que nos orgulhamos, e na justiça própria em que nos alicerçamos; tristeza pela rebelião contra Deus, hostilidade à Sua vontade; e tal choro sempre vai lado a lado com a pobreza consciente do espírito (Dr. Person). 

Uma impressionante ilustração e exemplificação do espírito sobre o qual o Salvador aqui pronunciou Sua bênção pode ser encontrada em Lucas 18. Há um contraste vívido apresentado a nossa visão. Em primeiro lugar, nos é mostrado um fariseu hipócrita olhando para cima em direção a Deus e dizendo: "Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo". Isso tudo pode ter sido verdade a respeito do publicano, porém,  o fariseu desceu à sua casa em estado de condenação. Suas vestes eram trapos, suas vestes brancas estavam imundas, embora ele não o soubesse. Em seguida, nos é mostrado o publicano, estando longe, que, na linguagem do salmista estava tão preocupado com as suas iniquidades que não era capaz de olhar para cima (Sl 40:12). Ele não se atreveu a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, consciente da fonte de corrupção interna, e exclamou: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!", e esse homem desceu justificado para sua casa, porque ele era pobre de espírito e chorou pelo seu pecado. 

Aqui estão as primeiras marcas do nascimento dos filhos de Deus, e embora nunca chegou a se considerar  pobre de espírito, e nunca soube o que é realmente chorar pelo pecado, mesmo pertencendo a uma igreja e seja um oficial nela, não entrou nem viu o reino de Deus. Quão grato o leitor cristão deve ser ao grande Deus condescendente ao habitar no coração humilde e contrito! Onde podemos encontrar qualquer coisa em todo o Antigo Testamento mais precioso do que isso? Que Ele, em cuja vista os céus não podem conter, que não pode se encontrar em qualquer templo que o homem já edificou para Ele, porém magnífico, um lugar de habitação adequada, tem disse Isaías 57:15 e 66:2! "Bem-aventurados os que choram". Embora a principal referência seja a pranto inicial, normalmente chamado de "convicção de pecado'', não significa que se limita a isso. 

Choro é sempre uma característica do estado normal do cristão. Há muita coisa que o crente tem a chorar – a praga de seu próprio coração o faz chorar, "miserável homem que eu sou", a incredulidade que "tão de perto nos rodeia" e os pecados que cometemos, que são em maior número que os cabelos de nossa cabeça, são uma dor contínua; a esterilidade e inutilidade de nossas vidas nos fazem suspirar e chorar; nossa propensão em se desviar de Cristo, a nossa falta de comunhão com Ele, a superficialidade do nosso amor por Ele, nos levam a pendurar nossas harpas nos salgueiros. 

Mas isso não é tudo. A religião hipócrita prevalece em todos os lados, tendo forma de piedade, mas negando a eficácia dela; a terrível desonra feita com a verdade de Deus pela falsas doutrinas ensinadas em incontáveis púlpitos​​; as divisões entre o povo do Senhor, as contendas entre irmãos, ocasião para contínua tristeza do coração. A terrível iniquidade no mundo, os homens desprezando a Cristo, os sofrimentos incalculáveis ​​ao redor, nos faz gemer em nosso interior. Quanto mais próximo o cristão vive de Deus, mais ele vai chorar por tudo o que o desonra. Com o salmista, ele dirá: "Grande indignação se apoderou de mim por causa dos ímpios que abandonam a tua lei" (119:53); com Jeremias, "E, se isto não ouvirdes, a minha alma chorará em lugares ocultos, por causa da vossa soberba; e amargamente chorarão os meus olhos, e se desfarão em lágrimas, porquanto o rebanho do SENHOR foi levado cativo"; "Portanto lhes dirás esta palavra: Os meus olhos derramem lágrimas de noite e de dia, e não cessem; porque a virgem, filha do meu povo, está gravemente ferida, de chaga mui dolorosa" (13:17, 14:17), com Ezequiel,"E disse-lhe o SENHOR: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela" (9:4). 

"Eles serão consolados". Isso se refere antes de tudo, a remoção da culpa consciente que pesa sobre a consciência. Ela encontra o seu cumprimento na aplicação do Espírito do Evangelho da graça de Deus para aquele a quem Ele tem convencido de sua extrema necessidade de um Salvador. Que emite em um sentido de livre e pleno perdão pelos méritos do sangue expiatório de Cristo. Este conforto divino é a paz de Deus que excede todo o entendimento enchendo o coração de quem está agora certo de que é "agradável a si no Amado". Deus primeiro toca na ferida antes de curar, primeiro humilha antes de exaltar. Primeiro, há uma revelação de Sua justiça e santidade, então dá a conhecer a Sua misericórdia e graça. 

"Eles serão consolados" também recebe um cumprimento constante na experiência do cristão. Embora ele chore suas falhas indesculpáveis e as confesse a Deus, mas ele é consolado pela certeza de que o sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, o limpa de todo pecado. Embora ele chore sobre a desonra feita a Deus por todos os lados ele está confortado por saber que o dia está se aproximando rapidamente, quando Satanás será retirado de cena e o Senhor Jesus se sentará no trono de Sua glória e em justiça e paz. Embora a mão da correção do Senhor muitas vezes é colocada sobre ele e, embora "toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza", no entanto, ele é consolado pela percepção de que tudo isso é operando para ele produzir "um peso eterno de glória mui excelente". Como o Apóstolo, o crente que está em comunhão com o Senhor pode dizer: "Como contristados, mas sempre alegres". Ele pode muitas vezes ser chamado a beber as águas amargas de Mara, mas Deus plantou uma árvore próxima para adoça-las. Sim, cristãos que "choram" são consolados até hoje pelo Consolador Divino, mediante a ministração dos Seus servos, por palavras de encorajamento aos irmãos, e quando estas não estão à mão, pelas preciosas promessas da Palavra sendo trazidas em seu poder para memória e coração. 

"Eles serão consolados". O melhor vinho é reservado para o fim. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã. Durante a longa noite de sua ausência, os santos de Deus foram chamados para a comunhão com Ele que era o Homem de Dores. Mas, bendito seja Deus, porque está escrito: "se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados" Que conforto e alegria será quando a aurora da manhã vier sem nuvens! Então, "deles fugirá a tristeza e o gemido" (Is 35:10). Então, será cumprida a palavra em Apocalipse 21:3,4: "E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque  as primeiras coisas são passadas".

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 12 - FOME E SEDE

 

"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos" (Mateus 5:6)


Nas três primeiras bem-aventuranças, somos chamados a testemunhar os exercícios do coração de alguém que foi despertado pelo Espírito Santo de Deus. Primeiro, há um sentido de necessidade, uma percepção de nulidade e vazio. Em segundo lugar, há um julgamento de si mesmo, uma consciência da culpa e tristeza sobre a condição perdida. Terceiro, há um fim na tentativa se justificar diante de Deus, um abandono de todas as pretensões de mérito pessoal, a tomada de seu lugar no pó diante de Deus. Em quarto lugar, os olhos da alma se desviam de si para o Outro: há um desejo após saber o que não se tem e de que agora se está consciente do que se precisa urgentemente. Tem havido muita preocupação desnecessária quanto à significação precisa da palavra "justiça" em nosso presente texto. 

A melhor maneira de determinar o seu significado é voltar para as Escrituras do Antigo Testamento, onde este termo é usado, e em seguida, colocar sob a luz mais completa, fornecida pelas Epístolas do Novo Testamento. "Destilai, ó céus, dessas alturas, e as nuvens chovam justiça; abra-se a terra, e produza a salvação, e ao mesmo tempo frutifique a justiça; eu, o SENHOR, as criei" (Isaías 45:8). A primeira metade deste versículo se refere, em linguagem figurada, ao advento de Cristo a esta terra; a segunda metade a sua ressurreição, quando "ressuscitou para nossa justificação". "Ouvi-me, ó duros de coração, os que estais longe da justiça. Faço chegar a minha justiça, e não estará ao longe, e a minha salvação não tardará; mas estabelecerei em Sião a salvação, e em Israel a minha glória" (Isaías 46:12-13). "Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação, e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão, e no meu braço esperarão" (Isaías 51:5). "ASSIM diz o SENHOR: Guardai o juízo, e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir, e a minha justiça, para se manifestar" (Isaías 56:1). "Regozijar-me-ei muito no SENHOR, a minha alma se alegrará no meu Deus; porque me vestiu de roupas de salvação, cobriu-me com o manto de justiça" (Isaías 61:10). Estas passagens deixam claro que "justiça" de Deus é sinônima de "salvação" de Deus. 

As escrituras acima são desdobradas na Epístola aos Romanos, onde o "Evangelho" recebe toda a sua exposição, veja em 1:1. Em 1:16, 17, nos é dito: "Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé". Em 3:22 a 24 lemos: "Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus". Em 5:19 esta abençoada declaração é feita: "pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos (legalmente constituídos) pecadores, assim pela obediência de um muitos (legalmente constituídos) serão feitos justos". Enquanto em 10:4 lemos: "Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê". 

O pecador é destituído de justiça, "pois não há um justo, nenhum sequer". Deus proveu, assim, em Cristo, uma justiça perfeita para todos e cada um de Seu povo. Esta justiça, esta satisfação de todas as exigências da santa lei de Deus contra nós, foi forjada por nosso Substituto e Penhor. Esta justiça é imputada agora, legalmente colocada na conta do pecador crente. Assim como os pecados do povo de Deus foram todos transferidos para Cristo, assim Sua justiça é colocada sobre eles, veja 2 Coríntios 5:21. Esse é um breve resumo do ensino da Escritura sobre este assunto vital e abençoado da "justiça". "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça". Fome e sede expressam desejo veemente, do qual a alma está profundamente consciente. Em primeiro lugar, o Espírito Santo traz ao coração os santos requisitos de Deus. Ele nos revela Seu padrão perfeito, que Ele nunca pode diminuir. Ele nos lembra que: "se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus". 

Em segundo lugar, a alma trêmula, consciente de sua própria pobreza abjeta, percebendo sua completa inabilidade de cumprir os requisitos de Deus, não vê nenhum amparo em si mesma. Esta é uma descoberta dolorosa, o que faz com que ele chore e gema. Com você tem sido assim? Em terceiro lugar, o Espírito Santo agora cria no coração uma profunda "fome e sede", que faz com que o pecador condenado procure alívio e ajuda fora de si mesmo. Os olhos estão agora voltados para Cristo, "O SENHOR JUSTIÇA NOSSA" (Jeremias 23:6).

Como nas anteriores, esta atitude começa no não convertido, mas é perpetuada no pecador salvo. Há um exercício repetido dessa graça, sentida em intervalos variáveis. Aquele que desejava ser salvo por Cristo, agora anseia em ser como Ele. Olhando para seu aspecto mais amplo, esta fome e sede se refere a respiração ofegante do coração renovado segundo Deus (Salmos 42:1), que anseia por andar mais próximo dEle, que deseja por mais perfeita conformidade com a imagem de Seu Filho. Ela fala daquelas inspirações da nova natureza pela bênção divina, que sozinha pode fortalecer, sustentar e satisfazer. O nosso texto apresenta um paradoxo tal que é evidente que nenhuma mente carnal jamais foi capaz de inventar. Pode alguém que tenha entrado em união vital com Ele que é o Pão da Vida, e em quem habita toda a plenitude, estar ainda com fome e sede? Sim, tal é a experiência do coração renovado. Observe cuidadosamente o tempo do verbo: não éBem-aventurados os que tiveram, mas: "Bem-aventurados os que têm fome e sede". É assim com você, caro leitor? Ou você está satisfeito com suas conquistas e satisfeito com a sua condição? Fome e sede de justiça tem sido sempre a experiência dos santos de Deus: veja Salmos 82:4; Filipenses 3:8,14, etc. "Porque eles serão fartos". 

Como a primeira parte do nosso texto, esta também tem um duplo cumprimento –inicial e contínuo. Quando Deus cria uma fome e uma sede na alma é que Ele pode satisfazê-los. Quando o pobre pecador faz sentir a sua necessidade de Cristo, é que ele pode ser atraído e levado a abraçá-lo. Como o filho pródigo, que veio para o Pai como um penitente, o pecador crente agora se alimenta daquele figurado pelo "bezerro cevado". Ele pode exclamar então: "Deveras no SENHOR  justiça". "Porque eles serão fartos". Não com vinho em que há contenda, mas "enchei-vos do Espírito". "Fartos" com a paz de Deus "que excede todo o entendimento". "Fartos" com a divina benção para o qual nenhuma dor é acrescentada. "Fartos" com louvor e agradecimento àquele que operou todas as coisas para o nosso bem. "Fartos" com o que este pobre mundo não pode dar nem tirar. "Fartos" pela bondade e misericórdia de Deus, até seu cálice transbordar. E, no entanto, tudo o que é apreciado agora é apenas uma pequena antecipação do que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Naquele Dia que está por vir, seremos "fartos" com a Santidade Divina, pois "seremos semelhantes a ele" (I João 3:2). Então estaremos para sempre livres do pecado, então nunca mais teremos fome nem sede (Apocalipse 7:16).

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 13 - SER LIMPO DE CORAÇÃO

"Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus" (Mateus 5:8)


Esta é outra das Bem-aventuranças que foi grosseiramente pervertida pelos inimigos do Senhor; inimigos que têm, como seus predecessores, os fariseus, posado como os campeões da verdade e vangloriado-se de uma santidade superior para que o verdadeiro povo de Deus os reconheça. Durante toda esta era cristã, houve pobres almas iludidas que reivindicaram uma purificação total do velho homem, ou que têm insistido que Deus os renovou tão completamente que a natureza carnal foi erradicada, e por consequência eles não só não cometem mais pecados, como não têm desejos ou pensamentos pecaminosos. Mas Deus nos diz: "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós" (I João 1: 8). É claro que tais pessoas apelam para as Escrituras em apoio a sua vã ilusão, aplicando a experiência de versos que descrevem os benefícios legais da Expiação. "... o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado" não significa que nossos corações foram lavados das impurezas corruptoras do mal, mas que o sacrifício de Cristo é eficaz para apagar judicialmente os pecados. "... as coisas velhas  passaram; eis que tudo se fez novo" (2 Coríntios 5:17) não se refere ao nosso estado neste mundo, mas a posição do cristão diante de Deus.

Que a pureza de coração não significa impecabilidade de vida está claro do registro inspirado da história de todos os santos de Deus. Noé se embebedou; Abraão se equivocou; Moisés desobedeceu a Deus, Jó amaldiçoou o dia de seu nascimento; Elias fugiu de terror de Jezabel; Pedro negou a Cristo. Sim, talvez alguém irá exclamar: mas todos esses foram antes do cristianismo ser estabelecido. Verdade, mas também tem sido a mesma situação desde então. Para onde devemos ir para encontrar um cristão de realizações superiores aos do apóstolo Paulo? E qual foi sua experiência? Leia Romanos 7 e veja. Quando ele queria fazer o bem, o mal estava presente com ele (v. 21); havia uma lei em seus membros guerreando contra a lei de sua mente, e o trazia cativo à lei do pecado (v. 23). Ele, com a mente, servia a lei de Deus, no entanto, com a carne servia a lei do pecado (v. 25). Ah, leitor cristão, a verdade é que uma das evidências mais conclusivas de que possuímos um coração puro é a descoberta e a consciência da impureza do velho coração habitando lado a lado com o novo. Mas vamos chegar mais perto de nosso texto.

"Bem-aventurados os limpos de coração". Na busca de uma interpretação de qualquer parte deste sermão do monte a primeira coisa a ter em mente é que aqueles a quem o Senhor falava haviam sido criados no judaísmo. Como disse alguém que foi profundamente ensinado pelo Espírito: "Não posso deixar de pensar que o nosso Senhor, ao utilizar os termos diante de nós, tinha uma tácita referência para esse caráter de santidade externa ou pureza que pertencia ao povo judeu, e esse privilégio das relações com Deus que estava ligado com esse caráter. Eles eram um povo separado das nações poluídas com a idolatria; separados como povo santo para Jeová; e, como um povo santo, eles foram autorizados a aproximar-se de seu Deus, o único e verdadeiro Deus, nas ordenanças de Sua adoração". 

Na posse desse caráter, e no gozo deste privilégio, o povo judeu se envaideceu. "Um elevado caráter, no entanto, e um alto privilégio, pertenciam àqueles que deveriam ser os súditos do reino do Messias. Eles não só deveriam ser externamente santos, mas,"puros de coração"; eles deveriam "ver Deus", ser introduzidos na mais íntima relação com Ele. Assim visto, como uma descrição do caráter espiritual e privilégios dos súditos do Messias, em contraste com o caráter externo e privilégios do povo judeu, a passagem diante de nós está cheia da mais importante e interessante verdade " (Dr. John Brown). 

"Bem-aventurados os limpos de coração". As opiniões se dividem quanto a saber se estas palavras de Cristo devem ser entendidas literal ou figurativamente; se a referência a ser o novo coração recebido na regeneração, ou à transformação moral do caráter que resulta de uma obra da graça divina sendo forjado na alma. Provavelmente ambos os aspectos da verdade são combinados aqui. Em vista do último lugar que esta bem aventurança ocupa na série, parece que a pureza do coração sobre a qual nosso Salvador pronunciou a Sua bênção, é essa limpeza interna, que acompanha e segue o novo nascimento. No entanto, na medida em que não existe pureza no coração do homem natural, o que aqui é afirmado por Cristo deve ser rastreado até a própria regeneração. O salmista disse: "Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria" (Salmos 51:6). Quão longe isto vai adentro da renovação e reforma externa que compreende uma parte tão grande dos esforços que agora estão sendo colocados diante da cristandade! 

Muito do que vemos ao nosso redor é uma religião "das mãos" – em busca de salvação pelas obras – ou uma religião "da cabeça", que repousa satisfeita em um credo ortodoxo. Mas Deus olha para o coração – uma expressão que parece incluir a compreensão, o afeto e a vontade. É porque Deus olha para o interior que Ele dá um "coração novo" (Ez 36:26) para seu próprio povo, e "bem-aventurados" na verdade são aqueles que têm recebido tal, pois é um "coração limpo". Como sugerido acima, acreditamos que esta sexta bem-aventurança contempla tanto o coração do novo recebido na regeneração e transformação de caráter que segue a obra da graça de Deus na alma. 

Primeiro, há uma "lavagem da regeneração" (Tito 3:5), pelo qual entendemos ser uma limpeza dos afetos, que são agora colocados sobre coisas do alto, em vez de nas coisas da terra; que é paralela com "purificando os seus corações pela fé" (Atos 15:9). Acompanhando isto vai a purificação da consciência – "tendo os corações purificados da má consciência" (Hb 10:22), que se refere à remoção do ônus da consciência da culpa, a compreensão interior que sendo justificados pela fé, "temos paz com Deus". Mas a pureza de coração elogiada aqui por Cristo vai mais longe do que isso. O que é pureza? É ser livre das contaminações, ter toda a afeição para a divindade, sinceridade e autenticidade. Como uma qualidade do caráter cristão, poderíamos defini-la como a simplicidade divina. É o oposto de sutileza e duplicidade. O genuíno cristianismo deixa de lado não apenas a malícia, mas a falsidade e a hipocrisia. Não basta ser puro em palavras e em conduta exterior; pureza dos desejos, motivações, intenções, é o que deve, sendo o principal, caracterizar o filho de Deus. Aqui, então, é o mais importante teste para cada cristão professo a aplicar a si mesmo: Estão as minhas afeições colocadas sobre as coisas do alto? São os meus motivos puros? Por que eu estou reunido com o povo do Senhor? Para ser visto pelos homens, ou para me encontrar com o Senhor e desfrutar da doce comunhão com Ele? 

"Porque eles verão a Deus". Mais uma vez gostaria de salientar como é que as promessas associadas a essas bem-aventuranças têm tanto um cumprimento presente quanto um futuro. Os puros de coração possuem discernimento espiritual e com os olhos de seu entendimento conseguem uma visão clara do caráter divino e percebem a excelência de seus atributos. Quando os olhos são bons todo o corpo está cheio de luz. Na verdade, pela fé que purifica o coração, eles "veem a Deus"; pois o que é essa verdade, senão uma manifestação da glória de Deus na face de Jesus Cristo – uma ilustre exibição da radiância combinada da santidade e da benignidade divinas! E ele não só obtém uma visão clara e satisfatória do caráter divino, mas ele aprecia a íntima e prazerosa comunhão com Deus. Ele é levado para muito perto de Deus; a mente de Deus torna-se a sua mente; a vontade de Deus torna-se sua vontade; e sua comunhão é de fato com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. "... os limpos de coração" "verão a Deus", desta forma, mesmo no mundo presente; e no estado futuro, seu conhecimento de Deus se tornará muito mais extenso e sua comunhão com Ele muito mais íntima; pois embora, quando comparado com os privilégios de uma dispensação anterior, mesmo agora "com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor", ainda, em referência aos privilégios de uma alta dispensação, ainda vemos "através de um espelho escuro" – "porque, em parte, conhecemos" – entendemos em parte, apreciamos em parte. Mas "quando vier o que é perfeito" "o que o é em parte será aniquilado". Então veremos face a face e conheceremos como nós somos conhecidos (I Cor 13:9-12.); ou para usar as palavras do salmista, "contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar" (Sl 17:15). Então, e não até aquele tempo, o pleno significado dessas palavras será entendido: os "limpos de coração verão a Deus" (Dr. John Brown).

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 14 - AS BEM-AVENTURANÇAS E CRISTO

Nossas meditações sobre as bem-aventuranças não seriam completas sem que elas voltassem nossos pensamentos para a pessoa de nosso bendito Senhor. Como temos procurado mostrar, elas descrevem o caráter e a conduta de um cristão, e como o caráter cristão é nada mais nada menos do que ser experimentalmente conforme à imagem do Filho de Deus, devemos nos voltar para Ele, para o padrão perfeito. No Senhor Jesus Cristo encontramos as mais brilhantes manifestações das mais altas exemplificações das diferentes graças espirituais que são encontradas, vagamente refletidas, em Seus seguidores. Não uma ou duas, mas todas essas perfeições eram exibidas por Ele, para mim não é apenas "lindo", mas "totalmente desejável". Possa o Espírito Santo que está aqui para glorificá-Lo tomar agora das coisas de Cristo e mostrá-las a nós. 

Primeiro, "Bem-aventurados os pobres de espírito". Que benção é ver como as Escrituras falam daquele que era infinitamente rico se tornar pobre por nossa causa, para que pela Sua pobreza pudéssemos ser ricos. De fato grande foi a pobreza em que Ele entrou no mundo. Nascido de pais que eram pobres em bens deste mundo, Ele iniciou sua vida terrena em uma manjedoura. Durante sua juventude e vida adulta Ele trabalhou numa bancada de carpinteiro. Depois de Seu ministério público ter começado Ele declarou que embora as raposas tivessem suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça. Se traçarmos os pronunciamentos messiânicos registrados nos Salmos pelo Espírito de profecia, veremos que uma e outra vez Ele confessou a Deus Sua pobreza: "Eu porém, sou pobre e triste" (Salmos 69:29), e, "INCLINA, SENHOR, os teus ouvidos, e ouve-me, porque estou necessitado e aflito" (Salmos 86:1), e novamente, "Pois estou aflito e necessitado, e o meu coração está ferido dentro de mim" (Salmos 109:22) . 

"Bem-aventurados os que choram". Cristo foi de fato o maior dos pranteadores. A profecia do Antigo Testamento contemplava-o como "homem de dores, e experimentado nos trabalhos". O vemos "​​condoendo-se da dureza do seu coração" (Marcos 3:5). O contemplamos "suspirando" quando curou o homem surdo e mudo (Mc 7:34). Observe-O chorando junto ao túmulo de Lázaro. Sua lamentação sobre a cidade amada, "Jerusalém, Jerusalém. . . quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos"(Mateus 23:37). Chegai e reverentemente contemplai-O na escuridão do Getsêmani, derramando Suas petições ao Pai, "com grande clamor e lágrimas"(Hebreus 5:7 ). Curve-se em reverente admiração ao ouvi-lo chorando na cruz, " Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Seu apelo melancólico: "Não vos comove isto a todos vós que passais pelo caminho? Atendei, e vede, se há dor como a minha dor" (Lamentações 1:12). 

Terceiro, "Bem-aventurados os mansos". Uma lista de exemplos podem ser tiradas dos Evangelhos ilustrando a humildade encantadora do encarnado Senhor da glória. Observe-a nos homens selecionados por Ele para serem Seus embaixadores: Ele não escolheu os sábios, os eruditos, os grandes, os nobres, mas os pobres para serem pescadores de homens em sua maior parte. Testemunhe-O nas companhias que ele tinha: Ele não procurava os ricos e famosos, mas era "amigo dos publicanos e pecadores". Veja nos milagres que Ele operou: uma e outra vez Ele intimou o curado a ir e não dizer a ninguém o que tinha sido feito por ele. Contemple-O na discrição de seu serviço: ao contrário dos hipócritas que soavam a trombeta diante de si, Ele não procurava publicidade, evitava a propaganda, desprezava a popularidade. Quando a multidão ia torná-lo seu ídolo, Ele os evitou (Marcos 1:45; 7:17). Quando eles chegaram e iriam "arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para o monte" (João 6:15). Quando seus irmãos O instigaram, "Sai daqui, e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes", Ele se recusou, e subiu para a festa em segredo (João 7). Quando Ele, em cumprimento da profecia, se apresentou a Israel, como seu rei, Ele entrou em Jerusalém "pobre, e montado sobre um jumento" (Zacarias 9:9). 

Quarto, "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça''. Que resumo é este da vida interior do homem Cristo Jesus! Antes da Encarnação, o Espírito Santo anunciou: "e a justiça será o cinto dos Seus lombos" (Isaías 11:5). Quando Ele entrou neste mundo, disse: "Eis-me aqui venho para fazer ó Deus a Tua vontade" (Hebreus 10:7). Como um menino de doze anos Ele perguntou: "Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?" (Lucas 2:49). No início do Seu ministério público, Ele declarou:"Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir" (Mateus 5:17). Aos Seus discípulos, Ele declarou: "A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou" (João 4:34). Dele o Espírito Santo disse: "Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros" (Salmos 45:7).

Ele também pode muito bem ser chamado de "O SENHOR JUSTIÇA NOSSA". 
Quinto, "Bem-aventurados os misericordiosos". Em Cristo vemos a misericórdia personificada. Foi a misericórdia para com os pobres pecadores perdidos que fez com que o Filho de Deus trocasse a glória do Céu pela vergonha da terra. Foi a misericórdia, maravilhosa e incomparável, que o levou à cruz, para ali se tornar uma maldição para o Seu povo. Por isso não é "pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou" (Tito 3:5). Ele ainda exerce misericórdia para nós como o nosso "fiel sumo sacerdote" (Hebreus 2:17). Assim também devemos esperar a "misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna" (Judas 21), porque Ele vai nos mostrar misericórdia "naquele dia" (2 Timóteo 1:18). 

Sexto, "Bem-aventurados os limpos de coração". Isso também era perfeitamente exemplificado em Cristo. Ele era o Cordeiro "imaculado e incontaminado". Ao se tornar homem, Ele era incontaminado, não contraindo nenhuma das contaminações do pecado. Sua humanidade era "santa"(Lucas 1:35). Ele era "santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores" (Hebreus 7:26). Nele "não havia pecado" (I João 3:5), portanto, Ele "não cometeu pecado" (I Pedro 2:22) e "não conheceu pecado" (2 Coríntios. 5:21). "Ele é puro" (I João 3:3). Porque Ele era absolutamente puro em Sua natureza, seus motivos e ações sempre foram puros. "Eu não busco a minha glória" (João 8:50) resume toda a sua carreira terrena. 

Sétimo, "Bem-aventurados os pacificadores". Suprema verdade é essa de nosso bendito Salvador. Ele é Aquele que "fez a paz pelo sangue da sua cruz" (Colossenses 1:20). Ele foi nomeado para ser a "propiciação" (Romanos 3:25), isto é, aquele que deveria pacificar a ira de Deus, satisfazer todas as exigências de Sua lei, glorificar a Sua justiça e santidade. Assim, também, que Ele fez a paz entre os judeus alienados e os gentios: veja Efésios 2:14-15. Em um dia por vir Ele ainda fará a paz nesta terra amaldiçoada pelo pecado e acometida pela guerra. Quando Ele se sentar no trono de seu pai, Davi, então, será cumprida essa palavra: "Do aumento deste principado e da paz não haverá fim" (Isaías 9:7). Por isso que Ele pode ser chamado de "Príncipe da Paz". 

Oitavo, "Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça". Ninguém foi mais perseguido do que o Justo. Que palavra que está em Apocalipse 12:4! Pelo espírito de profecia Ele declarou: "Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade" (Salmos 88:15). Em sua primeira aparição pública nos é dito que "levantando-se, o expulsaram da cidade, e o levaram até ao cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem" (Lucas 4:29). No templo eles "pegaram em pedras para lhe atirarem" (João 8:59). Durante todo seu ministério Seus passos foram perseguidos pelos inimigos. Os líderes religiosos O acusaram de ter um demônio (João 8:48). Aqueles que se sentavam na porta falavam contra Ele, e Ele foi a canção dos bêbedos (Salmos 69:12). Em seu julgamento eles arrancaram Seus cabelos (Isaías 50:6), cuspiram em Sua face, O esbofetearam, e O feriram com as palmas das suas mãos (Mateus 26:67). Depois Ele foi açoitado pelos soldados e coroado de espinhos, carregando sua própria cruz, Ele foi levado para o Calvário, onde o crucificaram. Mesmo pouco antes de morrer Ele não foi deixado em paz, mas foi perseguido por insultos e escárnios. Quão indizivelmente leve em comparação é a perseguição a que somos chamados a suportar por causa Dele!Da mesma forma, cada uma das promessas ligadas as bem-aventuranças encontra sua realização em Cristo.

Pobre em espírito Ele foi, mas Seu reino é supremo.

Ele chorou, mas foi e será confortado vendo o fruto do trabalho de Sua alma. 

Mansidão personificada, ainda se assentará sobre um trono de glória . 

Ele teve fome e sede de justiça, mas agora está farto ao contemplar a justiça que operou imputada ao Seu povo. 

Limpo de coração, Ele vê Deus como nenhum outro (Mateus 11:27). 

Como o pacificador, Ele é propriedade de todos os filhos comprados pelo sangue. 

Como o perseguido, é grande a sua recompensa, tendo sido dado um nome acima de todos. 

Que o Espírito de Deus nos ocupe mais e mais com Ele, que é mais justo do que os filhos dos homens.

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 15 - AFLIÇÃO E GLÓRIA


"Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente" 
(II Co 4:17)


Estas palavras nos oferecem uma razão por que não deveríamos desfalecer sob as aflições nem ser subjugados por infortúnios. Elas nos ensinam a olhar para as aflições do tempo sob a luz da eternidade. Elas afirmam que as presentes desgraças do cristão exercem um efeito benéfico no homem interior. Se estas verdades fossem agarradas firmemente pela fé elas mitigariam muito da amargura de nossas tristezas. “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente;" Este verso estabelece uma gloriosa antítese, contrastando nosso estado futuro com nosso presente. Aqui há "aflição", lá há "glória." Aqui há uma “leve aflição", lá uma "glória mui excelente." Em nossa aflição há leviandade e brevidade; é uma aflição leve, mas é por um momento; em nossa glória futura haverá solidez e eternidade! Descobrir a preciosidade deste contraste permite-nos considerar separadamente, cada parte, mas na ordem inversa da menção.  

1. "um peso eterno de glória." É significante saber que a palavra hebréia para "gloria"- kabod - também é "peso". Quando o peso do ouro é acrescentado de pedras preciosas isto aumenta o seu valor. A felicidade do céu não pode ser contada nas palavras terreais; expressões figurativas são melhor calculadas para transmitir algumas visões imperfeitas a nós. Aqui em nosso texto um termo é empilhado sobre outro. O que espera o crente é "glória" e quando dizemos que uma coisa é gloriosa nós alcançamos os limites do idioma humano para expressar o que é excelente e perfeito. Mas a "glória" que nos espera está pesado, sim é "mais excelente" que qualquer coisa terrestre e temporal; seu valor desafia os cálculos; sua excelência transcende além da descrição verbal. Além disso, esta glória maravilhosa que nos espera não é evanescente e temporal, mas divina e eterna; não pôde ser "eterna" a menos que seja divina. O grande e santo Deus vai nos dar o que é digno dEle, sim, tal qual como ele é, infinito e eterno.  

2. "nossa leve e momentânea tribulação." (1) "tribulação" é a sina comum da existência humana; "Mas o homem nasce para a tribulação, como as faíscas se levantam para voar." (Jó 5:7). Isto faz parte do vínculo do pecado. E não se encontra uma criatura caída que deva estar perfeitamente feliz em seus pecados. Nem as crianças estão isentas; "pois que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus". (Atos 14:22). Por uma estrada difícil e acidentada Deus nos leva a glória e a imortalidade. (2) nossa tribulação é "leve." Tribulações muitas vezes não são leves, são pesadas e dolorosas; mas elas são comparativamente leves! Elas são leves quando comparadas com o que nós realmente mereceríamos. Elas são leves quando comparadas com os sofrimentos do Senhor Jesus. Mas talvez a real leveza delas seja melhor vista comparando-as com o peso de glória que está nos esperando. Como disse o mesmo apóstolo em outro lugar, "Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada" (Rom. 8:18). (3) "Que é por um momento. Se nossas tribulações deveriam continuar ao longo de uma vida inteira e essa vida fosse igual em duração como o foi para Matusalém, contudo, isto é momentâneo se comparado com a eternidade que está diante de nós. No máximo nossa aflição é para esta vida presente, que é como um vapor que aparece por um pouco de tempo e então desaparece. Oh, que Deus nos permita examinar nossas aflições na verdadeira perspectiva delas.  

3. Note a conexão agora entre os dois. Nossa leve tribulação que é para um momento, produz "para nós um peso eterno de glória mui excelente;" O presente está influenciando o futuro. Não é para nós argumentarmos e filosofarmos sobre isto, mas submeter-se a Deus e a Sua Palavra e crer nisto. Experiências, sentimentos, observação da vida dos outros podem parecer negar este fato. Aflições muitas vezes só parecem nos amargurar e nos fazer mais rebeldes e descontentes. Mas deixe-me lembra-lo que aflições não são enviadas por Deus com a finalidade de purificar a carne: elas são intencionadas para o benefício do "novo homem." Além disso, aflições nos ajudam a nos preparar daqui por diante para a glória. Aflição afasta nosso coração do amor pelo mundo; nos faz almejar mais por aquele tempo em que seremos tirados deste mundo de pecado e tristeza; nos permitirá apreciar as coisas que Deus tem preparado para os que O amam. Então aqui é o que a fé é convidada a fazer: colocar em uma balança a aflição presente, no outro, a glória eterna. Eles merecem ser comparados? Não, realmente. Um segundo de glória vale mais do que o contrapeso uma vida inteira de sofrimentos. O que é anos de labuta, de doença, de lutar contra a pobreza, de perseguição, sim, da morte como um mártir, quando pesado contra as glórias que estão à mão direita de Deus que é eterno! Uma respiração no céu extinguirá todos os ventos adversos da terra. Um dia na Casa do Pai vale mais que o contrapeso dos anos que nós passamos neste triste deserto terreno. Que Deus nos conceda fé que nos habilite a esperançosamente nos agarrarmos a esse futuro e viver alegremente no presente com esta promessa.

 

 

 

 


 

CAPÍTULO 16 - CONTENTAMENTO


"Não digo isto como por necessidade, porque  aprendi a contentar-me com o que tenho" (Filipenses 4:11)


Descontentamento! Já houve um tempo em que havia tanta agitação no mundo como existe hoje? Duvidamos muito. Apesar de nosso orgulhoso progresso, o grande aumento da riqueza, o tempo e dinheiro gasto diariamente em prazer, o descontentamento está em toda parte. Nenhuma classe está isenta. Tudo está em um estado de fluxo, e quase todos estão insatisfeitos. Muitos até mesmo dentre o próprio povo de Deus são afetados com o espírito maligno desta era. 

Contentamento! É uma coisa concebível, ou é nada mais do que um belo ideal, um mero sonho de um poeta? É atingível na terra ou é restrita aos habitantes do céu? Se é possível aqui e agora, pode ser mantido, ou são alguns breves momentos ou horas de contentamento o máximo que podemos esperar nesta vida? Perguntas como estas encontram resposta, uma resposta, pelo menos, nas palavras do apóstolo Paulo: "Não digo isto como por necessidade, porque  aprendi a contentar-me com o que tenho" (Filipenses 4:11). 

A força da afirmação do apóstolo será melhor apreciada se a condição e circunstâncias do tempo em que ele a fez sejam mantidas em mente. Quando o apóstolo escreveu (ou mais provavelmente ditou) as palavras, ele não estava se deleitando em uma suíte especial no palácio do imperador, nem estava sendo entretido em alguma abastada casa cristã, cujos membros eram marcados por incomum piedade. Em vez disso, ele estava "em prisões" (confira Filipenses 1:13, 14); "preso" (Efésios 4:1), como ele diz em outra epístola. E, no entanto, não obstante, ele declarou que estava contente! 

Agora, há uma grande diferença entre preceito e prática, entre o ideal e o realizável. Mas no caso do apóstolo Paulo, o contentamento foi uma experiência real, e que deve ter sido contínua, pois ele diz, " aprendi” Como, então, Paulo entrou nesta experiência, e do que ela consiste? A resposta à primeira pergunta pode ser encontrada na palavra "a contentar-me". O apóstolo não disse, "Eu recebi o batismo do Espírito e, portanto, o contentamento é meu". Nem atribuiu essa bênção à sua perfeita "consagração". Igualmente claro é que não foi o resultado da disposição natural ou temperamento. É algo que ele aprendeu na escola da experiência cristã. Deve-se notar, também, que esta declaração é encontrada em uma epístola que o apóstolo escreveu perto do fim de sua carreira terrena! 

Pelo que tem sido apontado deve ser evidente que o contentamento que Paulo apreciava não era o resultado de um ambiente agradável e confortável. E isso de uma vez por todas dissipa uma concepção vulgar. A maioria das pessoas supõe que o contentamento é impossível a menos que se possa satisfazer os desejos do coração carnal. Uma prisão é o último lugar em que eles iriam se procurassem um homem contente. Tanto assim, que é claro: o contentamento vem de dentro, não de fora; deve ser buscado de Deus, não no conforto carnal. 

Mas vamos nos esforçar para ir um pouco mais fundo. O que é "contentamento"? É o estar satisfeito com as dispensações soberanas da providência de Deus. É o oposto da murmuração, que é o espírito de rebelião — o barro dizendo ao oleiro: "Por que me fizeste assim?" Em vez de reclamar de sua situação, um homem satisfeito é grato que sua condição e circunstâncias de vida não sejam piores do que já são. Em vez de avidamente desejar algo mais do que é oferecido para sua necessidade diária, ele se alegra de que Deus ainda se preocupe com ele. Tal pessoa é "contente", com o que ele tem (Hebreus 13:5). 

Um dos obstáculos fatais para o contentamento é a cobiça, que é um cancro que vai corroendo e destruindo a satisfação presente. Não foi, portanto, sem uma boa razão, que o Senhor deu o mandamento solene aos seus seguidores — "Acautelai-vos e guardai-vos da avareza" (Lucas 12:15). Poucas coisas são mais insidiosas. Muitas vezes ela posa com o oportuno nome de parcimônia, ou o sábio salvaguarda do futuro — uma forma de estar preparado para um vindouro "tempo de dificuldades". As Escrituras dizem: "a avareza, que é idolatria" (Colossenses 3:5), que é o afeto do coração apegado as coisas materiais em vez de Deus. A linguagem de um coração avarento é o das filhas da sanguessuga; Dá e Dá! O avarento é sempre desejoso de ter mais, não importa se ele tem pouco ou muito. Quão diferentes são das palavras do apóstolo "Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes" (1 Timóteo 6:8). Uma palavra muito necessária é a de Lucas 3:14: "contentai-vos com o vosso soldo". 

"Mas é grande ganho a piedade com contentamento" (1 Timóteo 6:6). Negativamente, ela livra da preocupação e do enfado, da cobiça e do egoísmo. Positivamente, nos deixa livres para desfrutar o que Deus nos deu. Que contraste é encontrado na palavra que segue: "Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores" (I Timóteo 6:9,10). Que o Senhor em Sua graça nos livre do espírito deste mundo, e nos faça ser "contentes com as coisas que temos". 

Contentamento, então, é o produto de um coração que descansa em Deus. É o prazer da alma, daquela paz que excede todo o entendimento. É o resultado da minha vontade ser trazida em sujeição à vontade divina. É a bendita segurança de que Deus faz todas as coisas bem, e está, até hoje, fazendo todas as coisas cooperarem para o meu supremo bem. Esta experiência tem que ser "aprendida" ao experimentar "qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2). Contentamento só é possível ao cultivarmos e mantermos essa atitude de aceitar tudo o que entra em nossas vidas como vindo da mão daquele que é sábio demais para errar, e nos ama sobremaneira para causar em um de Seus filhos uma lágrima desnecessária. 

Que a nossa palavra final seja esta: contentamento real só é possível estando na presença do Senhor Jesus. Isso se expressa claramente nos versos que seguem o nosso texto de abertura, "Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece" (Filipenses 4:12, 13). É somente cultivando a intimidade com que aquele que nunca descontentou que deveremos ser livres do pecado de se queixar. É somente pela comunhão diária com Ele que já se agradou da vontade do Pai que vamos aprender o segredo do contentamento. Que tanto o escritor quanto o leitor possam contemplar no espelho da Palavra, a glória do Senhor que deve ser transformada "de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor" (2 Coríntios. 3:18).

 

 

 

 


 

CAPÍTULO FINAL - A MORTE DOS SANTOS

"Preciosa é à vista do SENHOR a morte dos seus santos" (Salmos 116:15)


Esta é uma das muitas confortantes e abençoadas declarações na Sagrada Escritura relativas a esse grande evento do qual a carne tanto se apavora. Se o povo do Senhor fizesse mais frequentemente um estudo em oração e fé sobre o que a Palavra diz a respeito da sua partida deste mundo, a morte perderia muito, se não todos, dos seus terrores. Mas, infelizmente, em vez de fazê-lo, deixam sua imaginação correr solta, se entregam a temores carnais, andam por vista, em vez de pela fé. Olhando para o Espírito Santo como orientador, vamos nos esforçar para dissipar, à luz da revelação divina, algumas das trevas que a incredulidade lança até mesmo sobre a morte de um cristão. 

"Preciosa é à vista do SENHOR a morte dos seus santos". Estas íntimas palavras de um santo morrendo é objeto de atenção especial do Senhor, pois note as palavras "à vista". É verdade que os olhos do Senhor estão sempre sobre nós, pois Ele nunca dorme nem descansa. É verdade que podemos dizer em todos os momentos "Tu és Deus que me vê". Mas parece que da Escritura existem ocasiões quando Ele observa e cuida de nós de uma maneira especial. "DEUS é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia" (Salmos 46:1). "Quando passares pelas águas estarei contigo" (Isaías 43:2). 

"Preciosa é à vista do SENHOR a morte dos seus santos". Isto nos coloca diante de um aspecto da morte que é raramente considerado pelos crentes. Nos concede o que pode ser chamado de o lado divino do assunto. Com muita frequência, contemplamos a morte, como a maioria das outras coisas, do nosso lado, nosso ponto de vista. O texto nos diz que do ponto de vista do céu, a morte de um santo não é nem pavorosa, nem horrível, trágica ou terrível, mas "preciosa". Isso levanta a questão: Por que é a morte de Seu povo preciosa aos olhos do Senhor? O que há na última grande crise da existência terrena que é tão cara para Ele? Sem tentar uma resposta exaustiva, vamos sugerir uma ou duas respostas possíveis. 

1. O povo do Senhor é precioso aos Seus olhos.
Eles sempre foram e sempre serão queridos para Ele. Seus santos! Eles foram aqueles de quem Seu amor foi posto antes da Terra ser formada ou feitos os céus. Estes são aqueles por cujo propósito deixou sua casa no alto e quem Ele comprou com seu precioso sangue, alegremente estabelecendo a Sua vida por eles. Estes são aqueles cujos nomes são trazidos no peitoral do nosso grande Sumo Sacerdote e gravados nas palmas das Suas mãos. Eles são o dom de amor do Pai para Ele, Seus filhos, membros do Seu corpo e, portanto, tudo o que lhes diz respeito é precioso aos Seus olhos. O Senhor ama Seu povo tão intensamente que até os cabelos de suas cabeças estão contados: os anjos são enviados para servir-lhes, e porque seu povo é tão precioso aos Seus olhos assim também são as suas mortes. 

2. Porque a morte termina com as tristezas e sofrimentos dos santos.
Há uma razão para os nossos sofrimentos, pois através de muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus (Atos 14:22). No entanto, o Senhor não "aflige nem entristece de bom grado" (Lamentações 3:33). Deus não é esquecido nem indiferente às nossas provações e dificuldades. Em relação ao Seu povo de outrora, está escrito: "Em toda a angústia deles ele foi angustiado" (Isaías 63:9). "Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece daqueles que o temem" (Salmos 103:13). Assim, também somos informados de que nosso grande Sumo Sacerdote se compadece "das nossas fraquezas" (Hebreus 4:15). Aqui, então, pode ser outra razão pela qual a morte de um santo é preciosa aos olhos do Senhor, porque marca o término de suas tristezas e sofrimentos. 

3. Porque a morte proporciona ao Senhor uma oportunidade de mostrar a Sua suficiência.
O amor nunca é tão intenso quando é ministrando às necessidades daqueles que ele estima, e nunca o cristão é tão necessitado e impotente como na hora da morte. Mas as situações extremas do homem são as oportunidades de Deus. É então que o Pai diz ao Seu apavorado filho: "Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça". (Isaías 41:10).  É por isso que o crente pode responder confiantemente: "Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam". Nossa fraqueza apela à Sua força, nossa emergência à Sua suficiência. Quão abençoado é este princípio ilustrado nessas bem conhecidas palavras: "Como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço" (Isaías 40:11). Sim, Seu poder se aperfeiçoa na nossa fraqueza. Portanto, é a morte dos santos "preciosa" aos Seus olhos porque proporciona ao Senhor uma ocasião bendita para Seu amor, graça e poder de servirem e se comprometerem com Seu povo indefeso. 

4. Porque na morte o santo vai direto para o Senhor.
O Senhor se deleita em ter Seu povo junto de Si. Felizmente isso foi evidenciado durante todo Seu ministério terreno. Onde quer que fosse, o Senhor levava os seus discípulos junto com Ele. Se era para o casamento em Caná, para as festas em Jerusalém, à casa de Jairo quando sua filha estava morta, ou para o Monte da Transfiguração, eles sempre O acompanhavam. Como é abençoada esta palavra em Marcos 3:14, "E nomeou doze para que estivessem com ele". E Ele é "o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente". Portanto, Ele nos garantiu: "E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também" (João 14:3). Preciosa, então, é a morte dos santos aos Seus olhos, porque ausentes do corpo, estamos "com o Senhor" (2 Coríntios. 5:8). 

Enquanto estamos tristes por causa da morte de um santo, Cristo está se regozijando. Sua oração foi: "Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória" (João 17:24), e quando cada um de Seu povo entra no céu, Ele vê a resposta para essa oração e fica contente. Ele vê em cada um que está livre "do corpo desta morte" outra parte da recompensa por Sua agonia de alma, e se satisfaz. Portanto, a morte dos seus santos é preciosa para o Senhor, porque oferece uma causa para o Seu regozijo. 

É interessante e instrutivo traçar a plenitude da palavra hebraica aqui traduzida como "preciosa". Ela também é traduzida como "excelente". "Quão preciosa é, ó Deus, a tua benignidade" (Salmos 36:7). "O que possui o conhecimento guarda as suas palavras, e o homem de entendimento é de precioso espírito" (Provérbios 17:27). No entanto, se dignamente ou não ele possa ter vivido nesta terra, a morte de um santo é excelente aos olhos do Senhor. 

A mesma palavra hebraica é também traduzida como "honorável". "As filhas dos reis estavam entre as tuas ilustres mulheres" (Salmos 45:9). Então, Assuero perguntou a Hamã: "Que se fará ao homem de cuja honra o rei se agrada? Então Hamã disse no seu coração: De quem se agradaria o rei para lhe fazer honra mais do que a mim?" (Ester 6:6). Sim, a troca da Terra pelo céu é verdadeiramente honorável, e "esta será a honra de todos os seus santos. Louvai ao SENHOR" (Salmos 149:9). 

Esta palavra hebraica é também traduzida como "brilho". "Se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, caminhando gloriosa" (Jó 31:26). Tenebrosa e sombria, ainda que a morte possa ser assim para aqueles a quem o cristão deixa para trás neste mundo, é brilhante "à vista do Senhor": "mas acontecerá que ao cair da tarde haverá luz" (Zacarias 14:7). Preciosa, excelente, honrosa, brilhante aos olhos do Senhor é a morte dos seus santos. Que o Senhor faça esta meditação preciosa aos Seus santos.

 

 

 

 

Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira
Fonte:  Comfort for Christians de A.W. Pink

 

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Este é o homem a quem olharei...

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"Treme da minha palavra...", Isaías 66:1-2

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