Seg22072019

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Egoísmo, como Mostrado no Caráter de Balaão

egoismo

 "Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel?

A minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu"  (Nm 23.10)

 

DOMINGO passado, ficamos conhecendo a primeira par­te da história de Balaão. Vimos como os grandes dons que ele tinha foram pervertidos pela ambição e avare­za — a ambição tornando-os subservientes à admira­ção de si mesmo, a avareza transformando-os em meros instrumentos de acumulação de riqueza. E vimos como sua consciência foi se cor­rompendo pouco a pouco pela insinceridade, até que a mente virou lugar de contradições horrorosas e o próprio Deus se tornou para ele uma mentira. Com o coração em turbulência, até que a amargura de tudo dando errado dentro de si se expressou em circunstâncias ino­centes, ele se achou tão emaranhado num falso curso que voltar era impossível.

Agora passemos à segunda parte. Ele esteve com Balaque; ele construiu os altares, ofereceu os sacrifícios e tentou seus encantamen­tos para averiguar se Jeová lhe permitiria amaldiçoar Israel. E a voz em seu coração diz através de tudo: "Israel é bendito". Desde o cume do monte ele olha para baixo e vê bem ao longe o vasto acampamen­to de Israel em harmoniosa ordem, as tendas brancas brilhando "como árvores de sândalo [que] o Senhor as plantou" (Nm 24.6). Ele sente a grandeza solitária de uma nação distinta de todas as outras — povo que "habitará só e entre as nações não será contado" (Nm 239). Nação por demais inumerável para dar a Balaque a esperança de sucesso na guerra que se aproxima. "Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel?" Nação muito forte em justiça para os idolatras e encantadores poderem com ela. "Pois contra Jacó não vale encantamento, nem adivinhação contra Israel" (Nm 23-23)- Então se segue um brado pessoal: "A minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu" (Nm 23-10).

A fim de evitar a possibilidade de má interpretação, ou a suposição de que Balaão estava expressando palavras cujo significado pleno ele não entendia — que quando ele falava de justiça, só tinha uma noção paga disso —, reportemo-nos ao sexto capítulo de Miquéias, no quinto versículo. A seguir, voltemo-nos a Números 318 e Josué 13-22, onde concluímos que ele, que desejava morrer a morte dos justos, morreu a morte dos descrentes, e caiu, não no lado do Senhor, mas lutando contra a causa do Senhor. A primeira coisa que encontramos nesta história de Balaão é a tentativa de mudar a vontade de Deus.

Vamos entender claramente qual era o significado de todos esses sacrifícios reiterados.

1. Balaão quis agradar a si mesmo sem desagradar a Deus. O problema era como ir a Balaque e ao mesmo tempo não ofender a Deus. Ele teria dado mundos inteiros para se livrar dos seus deveres, e sacrificou, não para conhecer quais eram seus deveres, mas para fazer com que seus deveres fossem alterados. Agora veja o sentimen­to que se acha na raiz de tudo isso — que Deus é mutável. Entre todos os homens se teria pensado que Balaão sabia do que falava. pois então ele não teria dito: "Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa; porventura, diria ele e não o faria? Ou falaria e não o confirmaria?" (Nm 23-19). Mas, quando olhamos, percebemos que dificilmente Balaão tinha qualquer senti­mento mais elevado que este — que Deus é mais inflexível que o homem. Provavelmente tivesse ele expressado a nuance exata do sentimento, ele o teria dito, mais obstinado. Ele pensou que Deus tinha posto seu coração em Israel, e que era difícil, contudo não impossível, alterar esta parcialidade. Por conseguinte, ele usa de sa­crifícios para subornar e orações para persuadir a Deus.

Quão profundamente arraigado este sentimento está na natureza humana, esta crença na mutabilidade de Deus, a qual detectamos na doutrina romana das indulgências e expiações. A Igreja Romana per­mite pecados mediante certos pagamentos. Com certos pagamentos. ensina que Deus perdoará pecados. Expiações depois e indulgências antes do pecado são a mesma coisa. Mas esta doutrina romana nunca poderia ter tido sucesso, se a crença na mutabilidade de Deus e o desejo de Ele ser mutável já não estivesse no homem.

O que Balaão estava fazendo nestas parábolas, encantamentos e sacrifícios era comprar uma indulgência ao pecado; em outras pala­vras, tratava-se de tentativa em fazer a Mente Eterna mudar. O que se esperava que Balaão percebesse era Deus não pode mudar. O que ele percebia era: Deus não vai mudar. Há muitos escritores que ensi­nam que isto e aquilo é certo, porque Deus o quis. Toda discussão é interrompida pela resposta: Deus o determinou; portanto, é certo. Há perigo excedente neste modo de pensar, pois uma coisa não é certa porque Deus a permitiu, a não ser que Deus a permitiu, porque é certa. H sempre neste tom que a Bíblia se pauta. Nunca, exceto numa passagem obscura, a Bíblia reporta o certo e o errado à soberania de Deus, e a declara questão de vontade; nunca implica que se Ele o escolheu, Ele poderia inverter o mal e o bem. Diz: "Não é o meu caminho direito? Não são os vossos caminhos torcidos?" (Ez 18.25). "Não faria justiça o Juiz de toda a terra?" (Gn 18.25), foi a exclamação de Abraão numa mente de dúvida hedionda se o Criador não poderia estar na iminência de fazer injustiça. Assim a Bíblia justifica aos ho­mens os caminhos de Deus. Mas não o poderia fazer, a menos que admitisse leis eternas, com as quais ninguém pode interferir. Além disso, veja o que decorre deste modo de pensar. Se o certo é certo porque Deus o quer, então se Deus escolhesse, Ele poderia fazer que a injustiça, a crueldade e a mentira fossem certas. É exatamente isso que Balaão pensava. Se Deus ao menos pudesse ser convencido em odiar Israel, então para Ele amaldiçoá-los seria certo. Repetindo: se o poder e a soberania fazem o certo, então supondo que o Regente fosse um demônio, o ódio diabólico seria tão certo quanto agora é errado. Há grande perigo em alguns de nossos modos de pensar. É pensamento comum que o poder faz o certo, mas para nós não há descanso, não há pedra, não há fundamento seguro, contanto que sintamos que o certo e o errado são meras questões de vontade e decreto. Não há segurança, então, proveniente destes sentimentos e desejos veementes de alterar o decreto de Deus. Você está inseguro até que perceba que-. "O céu e a terra passarão, mas as minhas pala­vras [de Deus] não hão de passar" (Mt 24.35).

2. Notamos, em segundo lugar, uma tentativa em cegar a si mes­mo. Uma das páginas mais estranhas do livro do coração humano é virada aqui. Observamos a veracidade perfeita com a falta absoluta da verdade. Balaão era verdadeiro. Ele não enganaria Balaque. Nada era mais fácil do que obter a recompensa murmurando um feitiço, saben­do o tempo todo que não funcionaria. Certo europeu vendeu encan­tamentos a muitos selvagens ricos em troca de jóias e raridades, dessa forma enriquecendo-se mediante engano. Balaão não foi sobrenatu­ralmente detido. Esta pressuposição é infundada. Nada o detinha se­não a consciência. Nenhum suborno no mundo poderia induzir Balaão a dizer uma falsidade, fingir uma maldição que não tivesse poder, ficar com o ouro, por mais que o quisesse, em troca de influência. "Ainda que Balaque me desse a sua casa cheia de prata e ouro, não posso traspassar o mandado do Senhor, fazendo bem ou mal de meu próprio coração; o que o Senhor falar, isso falarei eu" (Nm 24.13), não era mera declaração admirável, mas a própria verdade. Você poderia tão prontamente tirar o sol do seu curso quanto induzir Balaão a proferir falsidade.

Entretanto, com tudo isso, não havia veracidade absoluta de cora­ção. Balaão não proferirá o que não é verdadeiro; mas ele se cegará de forma que não veja a verdade e assim fale uma mentira, crendo que seja a verdade. Ele só falará das coisas que sente; mas não tem cuidado de sentir tudo o que é verdadeiro. Ele vai a outro lugar, onde a verdade toda talvez não se imponha em sua mente — para um monte onde ele não verá todo o Israel, de monte em monte para o acaso de chegar a um lugar onde a verdade desapareça. Mas o fato inflexível permanece: Israel é bendito, e ele olhará o fato por todos os ângulos para ver se ele não fica numa posição em que a verdade não seja mais vista. Comportamento de avestruz!

Tal caráter não é tão incomum como, talvez, pensamos. Há mui­tos negócios lucrativos que envolvem miséria e erro para as pessoas que neles se empregam. O homem seria muito benevolente em pôr o ouro em sua bolsa se ele tivesse conhecimento da miséria. Mas ele não se preocupa em saber. Há muitas coisas desonestas feitas numa eleição, e o diretor não se preocupa em investigar. Muita opressão é exercida num inquilinato, e o proprietário recebe o aluguel sem fazer perguntas. Ou há situações que dependem da manutenção de certas opiniões religiosas, e o candidato suspeita que se fossem examina­das, não se poderia professar estas opiniões conscienciosamente e, por acaso, ele não se preocupa em examinar.

3. Incorrendo em todos estes desígnios maus contra Israel, Balaão tenta seu último expediente para arruinar o povo israelita, e parcial­mente tem sucesso. Ele aconselha a Balaque usar a fascinação das filhas de Moabe para atrair os israelitas à idolatria. Em vão ele tentou encantamentos e sacrifícios para inverter a vontade de Deus. Em vão tentou pensar que a vontade pudesse ser invertida. Não deu certo. Ele sente afinal que Deus não viu iniqüidade em Jacó, nem viu per­versidade em Israel. Portanto, ele tenta inverter o caráter deste povo favorito e, assim, inverter a vontade de Deus. Porém, Deus não amal­diçoará o bem; então, Balaão tenta torná-los ímpios; tenta fazer que o bem os amaldiçoe e assim exaspere a Deus.

Trata-se de maldade mais diabólica que dificilmente podemos imaginar. Contudo, Balaão era homem ilustre e verdadeiro; homem de consciência refinada e escrúpulos inconquistáveis; homem de su­blimes profissões religiosas, altamente respeitável e respeitado. O Senhor do céu e da terra disse que há tal coisa como coar um mosqui­to e engolir um camelo.

Há homens que não disputariam falsamente e, não obstante, ga­nhariam injustamente. Há homens que não mentiriam e, não obstante, subornariam um pobre para apoiar uma causa que ele acredita pia­mente ser falsa. Há homens que se ressentiriam à ponta da espada a acusação da desonra, os quais, não obstante, por satisfação egoísta atiçariam os fracos ao pecado e condenariam corpo e alma no infer­no. Há homens que ficariam chocados se fossem chamados de traido­res, os quais em tempo de guerra fariam uma fortuna vendendo ar­mas aos inimigos do próprio país. Há homens respeitáveis e respeita­dos que doam liberalmente, sustentam sociedades religiosas, vão à igreja e não tomam o nome de Deus em vão, que adquirem riquezas no comércio do ópio ou bebida provenientes da ruína de inumerá­veis vidas humanas. Balaão é um dos espíritos amaldiçoados, mas ele não fez mais do que esses fazem.

Veja agora o que se encontra na raiz de toda essa concavidade. Egoísmo.

Do início ao fim, uma coisa aparece no lugar mais alto desta história: o ego de Balaão — a honra de Balaão como verdadeiro profeta (portanto, ele não mentirá); a riqueza de Balaão (portanto, os israelitas devem ser sacrificados). Em suas visões mais sublimes, seu egotismo se manifesta. Aos olhos do Israel de Deus, ele clama: "A minha alma morra da morte dos justos". Em antecipação das glórias do Advento eterno: "[Eu] vê-lo-ei, mas não agora" (Nm 24.17). Ele vê a visão de um Reino, uma Igreja, um povo escolhido, um triunfo de justiça. Em tais antecipações, os mais nobres profetas irromperam em esforços nos quais a própria personalidade deles foi esquecida. Moisés. quando pensou que Deus destruiria o povo, orou em agonia: "Agora, pois, perdoa o seu pecado; se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito" (Êx 32.32). Paulo fala com palavras comoventes: Tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração. Porque eu mesmo poderia desejar ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne" (Rm 9.2,3). Mas o primordial sentimento de Balaão parece ser: "Como tudo isso me favorecerá?" E a magnificência da profecia fica arruinada por um sen­timento de melancolia e egotismo doentio. Nem por um momento — mesmo nos momentos em que homens sem inspiração alegremente se esquecem de si mesmos, homens que, em altruísmo muito admirá­vel, se dedicaram a uma monarquia ou sonharam com uma república — Balaão se esquece de si mesmo em favor da causa de Deus.

Observe então: O desejo por salvação pessoal não é religião. Pode estar junto dela, mas não é religião. A ansiedade pelo estado da pró­pria alma não é o sintoma mais saudável ou o melhor. Claro que todo o mundo deseja que "a minha alma morra da morte dos justos". Mas uma coisa é desejar ser salvo, outra é desejar o certo de Deus para triunfar, uma coisa é desejar morrer seguro, outra é desejar viver de modo santo. Não só este desejo por salvação pessoal não é religião, mas caso se estrague, passa para o ódio do bem. O sentimento de Balaão tornou-se despeito contra o povo que deve ser bendito quan­do o profeta não o é. Ele se entrega a um desejo de que o bem talvez não prospere, porque os interesses pessoais estão misturados com o fracasso do bem.

Vemos que a ansiedade acerca da opinião humana é superior. Por toda parte encontramos no caráter de Balaão semelhanças, não reali­dades. Ele não transgrediria uma regra, mas violaria um princípio. Ele não diria que branco era preto, mas o sujaria até que parecesse preto.

Agora considere o todo.

Um homem ruim profetiza sob o temor de Deus, contido pela consciência, pleno de poesia e sentimentos sublimes, com uma visão totalmente clara da morte — como a tolher o desenvolvimento da vida — e da bem-aventurança da justiça em comparação às riquezas. E, não obstante, vemo-lo se esforçando em desobedecer a Deus, intimamente insincero e com o coração enfermo; usando para o Diabo a sabedoria e os dons recebidos de Deus; sacrificando tudo — com uma compulsão de jogador — por nome e riqueza; tentando uma nação ao pecado, delito e ruína; separado no isolamento egoísta de toda a humanidade; superior a Balaque e, no entanto, sentindo que Balaque sabia que ele era homem que tinha seu preço; com a angús­tia amarga de ser menosprezado por homens que lhe eram inferiores; forçado a imaginar uma grandeza da qual ele não participava e uma justiça da qual não tinha parte. Você não pode conceber o fim de alguém com mente tão dilacerada e perturbada — morte na guerra; o frenesi insano com o qual ele correria no campo, descobrindo que tudo está contra ele, e a derrota pela qual havia permutado o céu, depois de ter morrido pior que mil mortes, ele finalmente encontra a morte nas lanças dos israelitas?

Fazendo uma aplicação, comentamos primeiramente o perigo de se ter grande poder. É coisa terrível este poder consciente de ver mais, sentir mais e saber mais que nossos companheiros.

Em segundo lugar, marquemos bem a diferença entre sentir e fazer.

É possível ter sentimentos sublimes, grandes paixões, até grande simpatia por um povo e mesmo assim não amar o homem. Sentir poderosamente é uma coisa, viver verdadeira e caridosamente é ou­tra. O pecado pode ser sentido no âmago do ser e, no entanto, pode não ser expulso. Irmãos, cuidado. Vejam como um homem pode pro­ferir palavras boas, verdades ortodoxas e, contudo, estar podre em seu coração.

 

frederick-w-robertson

 

 

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Este é o homem a quem olharei...

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"Treme da minha palavra...", Isaías 66:1-2

Como isto te parece? O Altíssimo, busca atentamente algo nos homens, algo cujo valor transcende as iguarias dos príncipes desta terra.