O Poder Expulsivo de um Novo Afeto

poder-de-um-novo-afeto"Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele." (1 Jo 2.15)

Á duas maneiras nas quais um moralista prático tenta deslocar do coração humano o amor do mundo: ou por uma demonstração da vaidade do mundo, de for­ma que o coração seja convencido a retirar sua estima por um objeto por julgá-lo não merecedor; ou apresentando outro objeto — até mesmo Deus — como mais merecedor do seu apreço, de modo que o coração fique convencido a não renunciar um antigo afeto, sem ter nada que o substitua, mas a trocar um antigo afeto por um novo. Meu propósito é mostrar que a julgar pela constituição de nossa natureza, o primeiro método é completamente incompetente e ineficaz; e que o último método por si só bastará para o salvamento e recuperação do coração do afeto errado que o domina. Depois de ter cumprido este propósito, farei algumas observações práticas.

O poder ascendente de um segundo afeto fará o que nenhuma exposição da loucura e inutilidade do primeiro afeto jamais conseguirá fazer — por mais enérgica que seja tal exposição. E o mesmo se dá no grande mundo. Você nunca deterá qualquer uma das principais buscas mundanas mediante demonstração crua de sua vaidade. É quase em vào pensar em obstar uma dessas buscas de alguma forma que não pelo estímulo de outra busca. No esforço de levar um homem munda­no — absorto e ocupado com a prossecução de seus objetos — a um ponto em comum, você não tem de meramente encontrar o atrativo que ele anexa a esses objetos —, mas precisa achar o prazer que ele sente na própria prossecução deles. Não é bastante que você dissipe o atrativo mediante exposição moral, eloqüente e comovente da intangibilidade dos objetos. Você tem de dirigir aos olhos da mente do homem outro objeto com um atrativo grandioso o bastante para desa­propriar o primeiro de sua influência, e engajá-lo em outra prossecu­ção tão plena de interesse, esperança e atividade, como a primeira. É isto que estampa impotência em toda a declamacão moral e patética sobre a insignificância do mundo. O homem não vai mais consentir com a miséria de estar sem objeto, porque esse objeto é uma ninharia, ou de estar sem uma busca, porque essa busca termina em aquisição frívola ou fugitiva, mais do que ele se submeterá voluntariamente à tortura, porque essa tortura será de pouca duração. Se estar conjunta­mente sem desejo e sem esforço é um estado de violência e desconfor­to, então não se fica livre do atual desejo, com sua correspondente série de esforços, simplesmente por sua destruição. Tem de ser pela substituição de outro desejo e pela troca de outra série ou hábito de esforços; e o modo mais eficaz de retirar a mente de um assunto não é pela recusa de uma vacância desolada e despovoada, mas pela apre­sentação à sua estima de outro objeto mais atraente.

Estas observações não se aplicam somente ao amor considerado em seu estado de desejo por um objeto ainda não alcançado. Apli­cam-se também ao amor considerado em seu estado de indulgência ou satisfação plácida, com um objeto já em possessão. É raro que nossos gostos sejam feitos para desaparecer por mero processo de extinção natural. Pelo menos, é muito raro que tal ocorra pela instrumental idade da argumentação. Pode ser feito por mimo excessi­vo, mas quase nunca por mera força da determinação mental. Porém, o que não pode ser destruído dessa maneira, pode ser desapropriado; e um gosto pode ser feito para dar lugar a outro, e para perder intei­ramente seu poder como o afeto reinante da mente. É assim que o menino deixa, por fim, de ser escravo de seu apetite, mas é porque agora um gosto mais varonil o pôs em subordinação. A juventude deixa de idolatrar o prazer, mas é porque o ídolo da riqueza ficou mais forte e adquiriu predomínio. Até o amor do dinheiro deixa de ter domínio sobre o coração de muitos cidadãos prósperos, mas é por­que, atraído ao redemoinho da política citadina, outro afeto foi forja­do em seu sistema moral, e agora ele é vadeado pelo amor do poder. Não há sequer uma destas transformações em que o coração é deixa­do sem objeto. Seu desejo por um objeto particular pode ser conquis­tado; mas quanto ao seu desejo de ter um ou outro objeto, isto é inconquistável. Sua adesão ao que sua preferência prendeu a estima não pode ser vencida voluntariamente pela laceração de uma separa­ção simples. Só pode ser feita pela aplicação de algo mais, ao qual sente a adesão de uma preferência ainda mais forte e mais poderosa. Tal é a tendência ávida do coração humano, que tem de ter algo a que se agarrar — e o qual, se for extorquido sem a substituição de outro algo em seu lugar, deixaria um vazio e uma vacância tão dolo­rosa à mente quanto a fome é para o sistema natural. Pode ser desa­propriado de um objeto, ou de alguns, mas não pode ser devastado de todos. Que haja uma respiração e um coração sensível, mas sem uma preferência e sem afinidade a qualquer uma das coisas que estão ao seu redor, e num estado de triste abandono, teria de estar vivo para nada mais que o fardo de sua própria consciência e de senti-la, que é intolerável. Não faria nenhuma diferença a seu possuidor se ele vivesse num mundo prazenteiro e agradável ou habitasse muito além das cercanias da criação, se ele vivesse como unidade solitária no nada escuro e despovoado. O coração tem de ter algo a que se agar­rar — e nunca, por consentimento voluntário, se desnudará de todas as suas estimas de modo que não haja um objeto restante que o atraia ou o solicite.

A miséria de um coração destituído de todo o encanto por aquilo que ministrava prazer é notavelmente exemplificado naqueles que, satisfeitos com a indulgência, têm sido espancados com a variedade e a pungência dos sentimentos aprazíveis que têm experimentado, para que no fim se cansem de toda capacidade por qualquer sentimento. A doença do enfado é mais freqüente na metrópole francesa, onde a diversão é mais exclusivamente a ocupação das classes mais altas, do que é na metrópole britânica, onde os desejos do coração são mais diversificados pelos recursos dos negócios e da política. Há os parti­dários da moda que, desta forma, se tornaram por fim vítimas do excesso da moda — em quem a própria multidão de prazeres final­mente extinguiu o poder do prazer —, que, com as satisfações da arte e da natureza às ordens, agora olham em tudo o que está ao redor com olhos de insipidez; que, manipulados com as delícias do senti­mento e do esplendor até ao cansaço, e incapazes de maiores delíci­as, chegaram a um fim de toda a perfeição, e como o Salomão de antigamente, descobriram ser vaidade e vexação. O homem cujo co­ração se transformou em deserto pode dar testemunho do langor insuportável que tem de se seguir, quando um afeto é arrancado do peito, sem outro para substituí-lo. Não é necessário que 0 homem receba a dor de algo para ficar miserável. É somente o bastante que ele olhe com desgosto em tudo — e nesse asilo que é o repositório de mentes desconjuntadas, e onde o órgão do sentimento como tam­bém o órgão do intelecto foram danificados, não é na cela dos altos e frenéticos clamores onde você se encontrará com o apogeu do sofri­mento mental. Mas esse é o indivíduo que perscruta a miséria de todos os seus companheiros, que ao longo de toda expansão da natu­reza e da sociedade não conhece um objeto que tenha absolutamente 0 poder de detê-lo ou interessá-lo; que nem na terra, embaixo, nem no céu, cm cima, conhece um único atrativo ao qual seu coração pode enviar um movimento cobiçoso ou respondente; a quem o mundo, a seus olhos uma desolação vasta e vazia, não lhe deixou nada mais que a própria consciência para alimentar — morto para tudo o que c sem ele e vivo para nada mais que a carga da própria existência entorpecida e inútil.

Agora, talvez, será percebido por que o coração guarda seus atuais afetos com tanta tenacidade, quando a tentação é pô-los de lado por mero processo de extirpação. Ele não consentirá ser devastado assim. O homem forte, cuja morada é ali, pode ser compelido a dar lugar a outro ocupante; mas a menos que outro mais forte que ele tenha o poder de desapropriá-lo e sucedê-lo, ele manterá seu atual alojamento inviolável. O coração se revoltaria contra sua própria vacuidade. Não suportaria ser deixado num estado de desperdício e insipidez triste. O moralista que tenta tal processo de desapropriação do coração é con­trariado a todo passo pelo recuo de seu próprio mecanismo. Você sabe que a natureza detesta o vazio. Pelo menos esta é a natureza do cora­ção, que apesar do espaço que nele há possa mudar um ocupante por outro, não pode permanecer vazio sem a dor do mais intolerável sofri­mento. Não é o bastante argumentar a loucura de um afeto existente. Não é o bastante, nos termos de uma demonstração enérgica ou comovente, fazer valer o esvaecimento do seu objeto. Talvez nem mes­mo seja o bastante associar as ameaças e terrores de alguma vingança vindoura com sua indulgência. O coração ainda resiste a toda aplica­ção, por cuja obediência seria por fim conduzida a um estado tanto em guerra com todos os seus apetites quanto de inanição absoluta. Assim, lacerar um afeto do coração, como a despi-lo de toda a estima e de todas as preferências, seria empresa dura e desesperada; e pareceria como se somente a máquina poderosa da desapropriação trouxesse o domínio de outro afeto para suportá-la.

Não conhecemos interdição mais radical dos afetos da natureza que a que foi entregue pelo apóstolo João no versículo citado inicial­mente. Ordenar um homem em quem ainda não entrou a influência grandiosa e ascendente do princípio da regeneração, ordenar-lhe que retire seu amor de todas as coisas que estão no mundo, é ordenar-lhe que abandone todos os afetos que estão no seu coração. O mundo é o tudo de um homem natural. Ele não tem um gosto, nem um desejo, que não aponte para algo colocado dentro dos confins de seu hori­zonte visível. Ele não ama nada acima disso, e não se importa com nada além disso; e ordenar-lhe que não ame o mundo é passar uma sentença de expulsão a todos os ocupantes do seu peito. Para calcu­larmos a magnitude e dificuldade de tal rendição, pensemos apenas que seria da mesma maneira árduo predominar nele o não amar a riqueza, que é apenas uma das coisas do mundo, quanto a predomi­nar nele o intento voluntário de atear fogo em sua propriedade. Ele o faria com relutância penosa e dolorosa, se visse que a salvação de sua vida dependesse disso. Mas ele o faria de boa vontade, se visse que uma propriedade nova de valor décuplo surgisse imediatamente dos escombros da antiga. Neste caso, há algo mais que o mero desloca­mento de afeto. Há o domínio de um afeto sobre outro. Porém, de­vastar seu coração de todo o amor pelas coisas do mundo, sem a substituição de algum amor em seu lugar, ser-lhe-ia processo de ta­manha violência antinatural, quanto a destruir todas as coisas que ele tem no mundo c não lhe dar nada em troca. De forma que, se o desapego ao mundo é indispensável ao cristianismo de alguém, en­tão a crucificação do velho homem não é termo muito forte para marcar essa transição em sua história, quando todas as coisas velhas são postas de lado e todas as coisas se tornam novas.

Esperamos que a esta altura, você entenda a impotência de uma mera demonstração da insignificância deste mundo. Seu efeito práti­co exclusivo, se houver algum, seria deixar o coração num estado que é insuportável a todo coração, e que é mero estado de nudez e negação. Você se lembra da tenacidade aficionada e irrompível com que seu coração se valeu periodicamente de buscas, acima da frivoli-dade absoluta da qual apenas ontem ele suspirava e lamentava. A aritmética dos seus dias efêmeros pode no sábado deixar a impressão mais clara em seu entendimento — e de seu imaginado leito de morte, possa o pregador fazer com que uma voz desça em repreensão e adversão de todas as buscas do mundanismo. E à medida que ele pinta diante de você as gerações passageiras dos homens, com o sepulcro consumidor, para onde todas as alegrias e interesses do mundo correm ao seu olvido seguro e veloz, que você possa, tocado e solenizado pelo argumento apresentado, sentir por um momento como se na véspera de uma emancipação prática e permanente de uma cena de tamanha vaidade. Mas o dia seguinte vem, e os negócios do mundo, os objetos do mundo e as forças móveis do mundo o acom­panham — e a maquinaria do coração, em virtude da qual tem de ter algo a que se apegar ou algo a que se aderir, subjuga um tipo de necessidade moral a ser incitada da mesma maneira que antes. Em repulsão absoluta a um estado tão indelicadamente quanto o de ser boicotado do júbilo e do desejo, o coração sente todo o calor e ur­gência de suas habituadas solicitações — nem no hábito e história de todo homem detectamos tanto quanto um sintoma de nova criatura —, assim que a Igreja, em vez de lhe ser uma escola de obediência, é mero lugar de passeio para o luxo de uma emoção passageira e tea­tral. A pregação, que é poderosa para compelir a freqüência das mul­tidões, que é poderosa para acalmar e solenizar os ouvintes em um tipo de sensibilidade trágica, que é poderosa no jogo da variedade e vigor que ela pode sustentar ao redor da imaginação, não é poderosa para derrubar fortalezas.

O amor do mundo não pode ser expurgado por mera demonstra­ção da imprestabilidade do mundo. Mas não pode ser suplantado pelo amor daquilo que é mais merecedor do que ele mesmo? O cora­ção não pode ser convencido em se separar do mundo por simples ato de resignação. Mas o coração não pode ser convencido em admi­tir em sua preferência outro, que subordinará o mundo e o derrubará de seu predomínio querido? Se o trono que é colocado ali tem de ter um ocupante, e o tirano que agora reina o ocupou injustamente, ele não pode deixar o peito que antes o deferia do que o deixaria em desolação. Porém, ele não pode dar lugar ao soberano legal, apare­cendo com todo atrativo que lhe assegure sua admissão voluntária, e tomando em si mesmo seu grande poder para subjugar a natureza moral do homem e reinar sobre ela? Numa palavra, se a maneira de desimpedir o coração do amor positivo de um objeto grande e ascendente é prendê-lo no amor positivo de outro, então não é expondo a imprestabilidade do primeiro, mas dirigindo aos olhos mentais o va­lor e a excelência do último, para que todas as coisas velhas passem e todas as coisas permaneçam novas.

Obliterar todos os nossos atuais afetos simplesmente expungindo-os, e deixar o lugar deles desocupado, seria destruir o velho caráter e não substituir pelo novo. Mas quando eles partem pelo ingresso de outras visitas; quando eles resignam sua preponderância pelo poder e predominância de novos afetos; quando, abandonando o coração à solidão, eles meramente dão lugar a um sucessor que se torna residência tão ocupada de desejo, interesse e expectativa como antes — não há nada em tudo isso que contrarie ou reprima as leis de nossa natureza sensível — e vemos, no mais pleno acordo com o mecanismo do coração, que grande revolução moral pode ser feita a suceder nele.

Isto, cremos, explicará a operação desse atrativo que acompanha a pregação eficaz do Evangelho. O amor de Deus e o amor do mundo são dois afetos, não meramente em estado de rivalidade, mas em estado de inimizade — e tão irreconciliáveis entre si que não podem habitar juntos no mesmo peito. Já afirmamos o quanto é impossível para o coração, por qualquer elasticidade inata que lhe seja própria, lançar fora o mundo e reduzir-se a um deserto. O coração não é tão constituído, e o único modo de desapropriá-lo de um antigo afeto é pelo poder expulsivo de um novo. Nada pode exceder a magnitude da mudança exigida no caráter de um homem, quando lhe é ordena­do, como está no Novo Testamento, que não ame o mundo. Não, nem algumas das coisas que estão no mundo, pois isto tanto compre­ende tudo o que lhe é querido na existência quanto a ser equivalente a uma ordem de auto-aniquilação. Mas a mesma revelação que dita tão poderosa obediência, coloca dentro de nosso alcance tão podero­so instrumento de obediência. Traz à entrada, à própria porta de nos­sos corações, um afeto que, uma vez tenha ocupado o lugar em seu trono, ou subordinará todo ocupante anterior, ou o expulsará. Ao lado do mundo, coloca diante dos olhos da mente aquEle que fez o mundo, e com esta peculiaridade que lhe é totalmente própria: que no Evangelho nós realmente vemos Deus, de modo que podemos amar a Deus. É ali, e somente ali. onde Deus é revelado como objeto de confiança aos pecadores; e onde nosso desejo por Ele não é esfri­ado na apatia pela barreira da culpa humana. Esta, por sua vez, inter­cepta toda aproximação que não lhe é feita pelo Mediador designado. É pela apresentação desta esperança melhor que nos aproximamos de Deus — e viver sem esperança é viver sem Deus, e se o coração está sem Deus, o mundo terá todo o predomínio. É Deus apreendido pelo crente como Deus em Cristo que sozinho pode depô-lo deste predomínio. É quando Ele c desmantelado dos terrores que lhe per­tencem como Legislador ofendido, e quando somos capacitados pela fé, que é o seu próprio dom, que vemos sua glória na face de Jesus Cristo e ouvimos sua voz suplicante, conforme ela exige boa vontade para com os homens e pede o retorno de todos que chegam a um perdão total e a uma aceitação graciosa; é então que um amor supe­rior ao amor do mundo, e por fim expulsivo dele, surge pela primeira vez no peito regenerado. É quando, liberto do espírito de escravidão, com o qual o amor não pode habitar, e quando admitido no rol dos filhos de Deus, pela fé que está em Cristo Jesus, que o espírito de adoção é derramado em nós — é então que o coração, posto sob o domínio de um grande c predominante afeto, é liberto da tirania de seus desejos anteriores e da única maneira pela qual a libertação é possível. E essa fé, que nos é revelada do céu como indispensável para a justificação do pecador à vista de Deus, também é o instru­mento das maiores realizações morais e espirituais numa natureza morta à influência e além do alcance de todas as outras aplicações.

Assim, que nos conscientizemos do que produz o tipo mais eficaz de pregação. Não é o bastante oferecer aos olhos do mundo o espe­lho de suas próprias imperfeições. Não é o bastante vir com uma , demonstração, por mais patética que seja, do caráter evanescente de todos os seus prazeres. Não é o bastante percorrer o itinerário da experiência junto com você e falar à sua consciência, à sua memória, sobre a falsidade do coração e a falsidade de tudo a que o coração se prende. Há portador da mensagem do Evangelho que não tem sufici­ente discernimento natural, que não tem suficiente poder de descri­ção característica e que não tem suficiente talento de delineação mo­ral para apresentar a você um esboço vivido e fiel das loucuras da sociedade. Mas essa mesma corrupção que ele não tem a faculdade de representar em seus detalhes visíveis, ele pode ser praticamente o instrumento de erradicação de seu princípio. Que ele seja apenas um explanador fiel do testemunho do Evangelho. Inapto para aplicar um estilo descritivo ao caráter do mundo atual, que ele apenas relate com precisão o assunto cuja revelação o trouxe de um mundo distante — inábil como ele c no trabalho de anatomizar o coração, como ocorre com o poder de um novelista em criar uma exibição vivida ou im­pressionante da inutilidade de seus muitos afetos. Que ele lide ape­nas com os mistérios da doutrina peculiar, sobre a qual os melhores novelistas lançaram o capricho da derrisão. Com os olhos da observa­ção astuta e satírica, ele pode não ser capaz de expor ao pronto reconhecimento dos ouvintes os desejos do mundanismo; mas comissionado com as Boas Novas do Evangelho, ele pode brandir o único instrumento que tem a capacidade de extirpá-las. Ele não pode fazer o que alguns fizeram, quando, como que pela mão de um mági­co, trouxeram à luz os recessos escondidos de nossa natureza, as excentricidades e apetites emboscados que lhe pertencem. Porém ele tem a verdade em posse, a qual em todo o coração que entre, irá, como a vara de Arão, tragar todos eles. Inapto quanto é para descre­ver o velho homem em toda a mais agradável matização de suas variedades naturais e constitucionais, com ele está depositada a influ­ência ascendente sob a qual são destruídos os principais gostos e tendências do velho homem, e ele se torna nova criatura em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Não deixemos de manipular o único instrumento de operação poderosa e positiva para aniquilar o amor do mundo. Tentemos todo método legítimo de encontrar acesso ao seu coração por amor daque­le que é maior que o mundo. Para este propósito, livremo-nos, se possível, da mortalha da incredulidade que tanto esconde e escurece a face da deidade. Insistamos nas reivindicações que Ele faz ao seu afeto; e quer na forma de gratidão, quer na forma de estima, nunca deixemos de afirmar que no todo dessa economia maravilhosa, cujo propósito é recuperar um mundo pecador para si mesmo, Ele, o Deus de amor, assim se apresenta em caráter de estima, de modo que nada. senão a fé, e nada, senão o entendimento, estejam faltando, de sua parte, para evocar de volta o amor de seu coração.

É inteiramente digno que comentemos sobre esses homens que têm aversão do cristianismo espiritual e. de fato, julgam-no aquisição impraticável, o quanto de sua incredulidade acerca das exigências do Cristianismo e de sua incredulidade no que tange às doutrinas do Cristianismo estão uma com a outra. Não admira que eles sintam que o trabalho do Novo Testamento está além de suas forças, uma vez que consideram que as palavras do Novo Testamento estão sob a atenção deles. Nem eles nem ninguém pode desapropriar o coração de um afeto antigo, a não ser pelo poder impulsivo de um novo. Se esse novo afeto é o amor de Deus, nem eles nem ninguém pode fazer com que esse afeto seja acolhido, a não ser em tal representação da deidade com vistas a atrair o coração do pecador para Ele. É apenas a incredulidade que filtra do discernimento da mente esta representa­ção. Eles não vêem o amor de Deus no fato de Ele enviar seu Filho ao mundo. Eles não vêem a expressão de sua ternura pelos homens não poupando-o, mas entregando-o à morte por nós todos. Eles não vêem a suficiência da expiação ou dos sofrimentos que foram suportados por Ele, que levou o fardo que os pecadores deveriam ter levado Eles não vêem a santidade e a compaixão harmonizadas da deidade no que Ele passou pelas transgressões de suas criaturas, ainda que não pudesse passar por eles sem fazer expiação. É um mistério para eles como um homem passa ao estado de santidade proveniente de um estado da natureza — mas se eles tivessem apenas uma visão confiante de Deus manifesto em carne, isto lhes solucionaria todo o mistério da santidade. Conforme as coisas são, eles não podem livrar-se de seus antigos afetos, porque estão fora de vista de todas as verdades que têm influência para criar um novo. Eles são como os filhos de Israel na terra do Egito, quando lhes foram exigidos que fizessem tijolos sem palha. Eles não podem amar a Deus, enquanto desejam a única comida que alimenta este afeto no peito do pecador. Por maiores que sejam os erros, tanto em resistir às exigências do Evangelho como impraticáveis, quanto em rejeitar as doutrinas do Evangelho como inadmissíveis, contudo não há um homem espiritual (e é prerrogativa dele que é espiritual julgar todos os homens) que não venha a perceber que há uma consistência nestes erros.

Mas se há uma consistência nos erros, de certa forma há uma consistência nas verdades que lhes são opostas. O homem que acre­dita nas doutrinas peculiares se curvará prontamente diante das de­mandas peculiares do Cristianismo. Quando lhe é dito para amar a

Deus supremamente, isto pode surpreender alguém, mas não surpre­enderá a quem Deus foi revelado em paz e em perdão, e em toda a liberdade de uma reconciliação oferecida. Quando lhe é dito que exclua o mundo do seu coração, isto pode ser impossível àquele que não tem nada para substituí-lo — mas não impossível para aquele que encontrou em Deus uma porção segura e satisfatória. Quando lhe é dito que retire seus afetos das coisas que são de baixo, isto era uma ordem de auto-extinção para o homem que não conhece outra parte da esfera de sua contemplação, para a qual ele poderia transfe­ri-los. Porém não lhe foi doloroso, cuja visão foi aberta à beleza e glória das coisas que são de cima, e ali pôde encontrar, para sempre sentindo na alma, uma ocupação mais ampla e aprazível. Quando lhe é dito que não olhe para as coisas que se vêem e que são temporais, isto destrói a luz de tudo o que é visível do prospecto daquele em cujos olhos há um muro de separação entre a natureza culpada e as alegrias da eternidade. Mas aquele que crê que Jesus Cristo derrubou este muro encontra um esplendor concentrado na alma como se ele olhasse para a frente, com fé, nas coisas que não se vêem e são eternas.

O objeto do Evangelho é pacificar a consciência do pecador e purificar-lhe o coração; e é de importância observar que o que arrui­na um desses objetos, arruina o outro também. A melhor maneira de lançar fora um afeto impuro é admitir um puro; e pelo amor do que é bom. expelir o amor do que é mau. Assim é que quanto mais livre o Evangelho, mais santificador ele é; e quanto mais for recebido como doutrina da graça, mais será sentido como doutrina de acordo com a santidade. Este é um dos segredos da vida cristã, que quanto mais um homem depende de Deus, maior é o pagamento do serviço que ele presta. Na posse do "Faça isto e você viverá" é certo que entra um espírito de temor; e os ciúmes de uma barganha legal afugentam toda a confiança do intercurso entre Deus e o homem. A criatura que se esforça por permanecer numa posição de equidade diante de seu Criador está, de fato, buscando o tempo todo o seu próprio egoísmo em vez da glória de Deus; e com todas as conformidades que ele labora cm cumprir, a alma da obediência não está ali, a mente não está sujeita à lei de Deus, nem em verdade pode estar jamais sob tal economia. É somente quando, como no Evangelho, a aceitação é dada como presente, sem dinheiro c sem preço, que a segurança que 0 homem sente em Deus é colocada além do alcance da perturbação; OU que ele pode descansar nEle como um amigo descansa em outro; ou que o entendimento liberal e generoso pode ser estabelecido en­tre eles — uma parte alegrando-se com a outra por fazer-lhe o bem — , o outro descobrindo que a mais verdadeira alegria do coração acha-se no impulso de uma gratidão, pela qual é despertado nos atrativos de uma nova existência moral. A salvação pela graça, a salvação pela graça livre, a salvação não das obras, mas de acordo com a misericór­dia de Deus — a salvação, nesses termos, não é mais indispensável à libertação de nosso povo da mão da justiça, do que é à libertação de nossos corações do frio e do peso da impiedade. Retenha um único trapo ou fragmento de legalidade para com o Evangelho, e você le­vantará um tópico de desconfiança entre o homem e Deus. Você privará o poder do Evangelho em comover e conciliar. Para este pro­pósito, quanto mais livre for, melhor é. E o pecador nunca encontra dentro de si mesmo transformação moral tão poderosa como quando, sob a convicção de que é salvo pela graça, ele se sente constrangido a oferecer ao seu coração algo dedicado e negar a impiedade.

Para fazer um trabalho da melhor maneira, você faria uso das ferramentas mais adequadas. E cremos que o que foi dito pode servir em algum grau para a direção prática daqueles que gostariam de obter a grande conquista moral de nosso texto, mas sentem que as tendências e desejos da natureza lhes são muito fortes. Não sabemos de outro modo pelo qual manter o amor do mundo do lado de fora de nosso coração, senão guardar em nosso coração o amor de Deus; e de nenhum outro modo pelo qual manter nosso coração no amor de Deus, senão nos edificarmos em nossa santíssima fé. Essa negação do mundo, impossível àquele que diverge do testemunho do Evange­lho, é possível, mesmo como todas as coisas são possíveis, àquele que crê. Experimentar isto sem fé é trabalhar sem a ferramenta certa ou o instrumento certo. Mas a fé opera pelo amor; e o modo de expelir do coração o amor que transgride a lei é admitir em seus receptáculos o amor que cumpre a lei.

Imagine um homem de pé à margem deste mundo verde; e que. ao olhar para o mundo, viu a abundância favorecendo todos os cam­pos, todas as bênçãos que a terra pode dispor espalhadas em profusão por todas as famílias, a luz do sol descansando docemente em todas as habitações agradáveis e as alegrias da companhia humana cintilando em muitos círculos felizes da sociedade — imagine que este seja o caráter geral da cena em um lado do que ele contempla; e que, no outro lado, além do limite do planeta agradável no qual estava situado, ele não visse nada mais que uma escuridão e o desco­nhecido insondável. Você acha que ele diria adeus voluntariamente a todo o brilho e a toda a beleza que estavam diante dele na terra, e se entregaria à solidão? Ele deixaria os lugares povoados, e se tornaria um errante solitário pelos campos da não-existência? Se o espaço lhe oferece nada mais que um deserto, ele abandonaria por isso a vida e a alegria que jazem tão próximas, e empregaria tal poder de urgência para o deter? Ele não se apegaria às regiões do sentimento, da vida e da sociedade? E retirando-se da desolação que estava além, ele não se alegraria em manter seu fundamento firme no território deste mundo e abrigar-se debaixo do sobrecéu prateado que foi estendido em cima? Mas se, durante o tempo de sua contemplação, alguma ilha de bênção tivesse flutuado e arrojado em seus sentidos a luz de glória incomparável e o som da mais doce melodia; e ele visse claramente que a mais pura beleza repousava em todos os campos e a mais sincera alegria se espalhava entre todas as famílias; e ele discernisse uma paz, uma devoção e uma benevolência que punham uma alegria moral em todo o peito e uniam toda a sociedade numa simpatia jubilosa uns com os outros e com o benigno Pai celestial de todos eles — e visse mais: que a dor e a mortalidade eram desconhecidas ali e que, acima de tudo, os sinais de boas-vindas eram vistos e uma avenida de comunicação fosse aberta para ele —, você não percebe que o que estava diante do deserto se tornaria a terra do convite, e que agora o mundo verde seria o deserto? O que o espaço despovoado não pôde fazer pode ser feito pelo espaço que abunda com cenas beatíficas e sociedade beatífica. E que as tendências existentes do coração sejam o que puderem para a cena que está próxima e visível ao nosso redor. Contudo, se outro for revelado ao prospecto do homem, quer pelo canal da fé, quer pelo canal dos sentidos, então, sem violência à constituição de sua natureza moral, que ele morra para o mundo presente e viva para o mundo mais belo que está ao longe.

 

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